A gente brincou sem máscara nesse carnaval. A gente não ouvia samba quando se conheceu e é bem verdade que eu esqueci seu nome. Aí você me embolou nos seus braços e eu não lembro se foi antes ou depois que me dei conta do quanto seus olhos eram calmos. Eram cinco da manhã? Talvez mais? Não sei mais, só sei que o tempo se adiantou e chegamos na primavera sem sequer passar pelo outono. Bosques de flores brotavam no caminho que fizemos na volta, eu e você, que não decidimos nada, só seguimos. Talvez aquela fosse uma tentativa de prolongar a noite, que já era dia. Uma tentativa de nunca ser amanhã, de ser pra sempre hoje. Acho que pensamos que pudesse ser só mais um amor de carnaval, efêmero. Mas não, era primavera já. Você entendeu, eu também.
Agora você brinda-me com seus números, com essa serenidade tão feroz. Você é um oásis no meio do seu próprio deserto. E quando você me abriu as portas desse oásis eu bebi da sua água, da sua água fresca, ouvi suas histórias, vi suas marcas, chorei e sorri a sua história e então embolei você nos meus braços porque já eram quase sete horas. Aí eu decorei seu sorriso e o toque que meus dedos experimentaram na sua pele. Aí eu apertei o seu braço e tomei seu sorriso, mas te deixei o meu. Agora tem um pouco de você em mim.
Eu sei que depois dessa primavera vem um verão. Sempre tem verão depois da primavera. Mas enquanto houver flores nesse caminho e auroras em seus olhos, meu querido, então não há de se temer o calor nem as tempestades.
Bato a porta do táxi com força e aperto o botão da portaria. Ouço passos na calçada e tenho medo, mas logo vem o clique do portão abrindo e entro depressa. Digo boa noite ao porteiro quase mecanicamente. Já é tarde e só penso em estar com ele.
Quando o elevador fecha a porta vejo que já é meia-noite.
Ele
O ponteiro dos segundos vai passando e ouço os barulhos soando numa contagem regressiva. É silêncio profundo. É escuro também, e profundo, não vejo absolutamente nada.
Escuto o estalo que escapa dos ponteiros do relógio quando eles se juntam, à meia-noite.
Pontualmente surge o barulho do elevador.
Ela está subindo.
Ela
Penso nele novamente e o elevador pára. A porta se abre e sinto o coração bater forte. Ando em direção à porta ansiosa.
Ele
O elevador pára e as portas se abrem. Passo a passo ela vem chegando e pelo barulho agudo que seus pés causam percebo que ela usa suas sandálias de salto alto pretas que deixam seus pés magníficos. Seus passos são descompassados como se tivessem pressa.
Ela
Abro minha bolsa e procuro minhas chaves: porque será que nunca sei onde elas estão? Quase levo a mão à campainha, mas acabo achando a chave bem lá no fundo. Imagino que ele já saiba que estou à porta.
Ele
Ela pára um instante e meu peito se enche. Ruídos dela mexendo na bolsa: por que será que ela nunca sabe onde está sua chave? Por um momento já espero a campainha tocar, mas ela vai abrindo a porta devagar e silenciosamente, imaginando que já durmo.
Ela
Lá dentro há um silêncio profundo, como sempre.
Jogo minha bolsa pelo chão, estou realmente cansada hoje. Vou a geladeira, faço bastante barulho pra ele perceber que cheguei. Mexo em qualquer coisa, bebo água.
Depois de um breve silêncio, abro meu zíper devagar e sei que agora ele deve estar sorrindo porque adora esse momento.
Ele
Ouço sua bolsa cair pelo chão da sala seguido de um longo suspiro de cansaço. Abre a geladeira, mexe em algo, pega um copo e bebe alguma coisa em grandes goles.
Barulho de zíper abrindo.
Sorrio.
Ela
Vou andando cambaleante para o banheiro pensando numa ducha bem quente. Entro, tiro a roupa, mas não fecho a porta pensando em ser surpreendida. Deixo a água cair, me esfrego, tudo num ritmo bem constante pra que ele me perceba. Mas ele não aparece, então acabo logo e fecho o chuveiro. Ao mesmo tempo ouço ele virar-se na cama.
Ele
Seus passos agora são descompassados de cansaço e ela vai se arrastando pelo corredor até o banheiro, mas não fecha a porta. Vai tomar um banho rápido, eu sei. Chuveiro, água caindo, pele sendo massageada. Tudo é quase musical. Eu fecho os olhos já sabendo onde tudo isso vai dar. Mas ela ainda nem me procurou e por isso sou eu quem suspira agora. Eu me viro na cama e ela range. Ao mesmo tempo ela fecha o chuveiro, em uníssono.
Ela
Enxugo-me, pego a escova e fico penteando os cabelos por alguns segundos. Depois passo um hidratante no rosto e como não faço barulho, me divirto percebendo que ele deve estar pensando o que faço nesse momento porque há um silêncio tenso.
Ele
Ela enxuga-se, penteia o cabelo. Provavelmente por alguns segundos está passando algum creme no rosto, porque ela sempre faz isso e porque há um silêncio tenso.
Ela
Enrolo-me na toalha, apago a luz e vou andando para o quarto.
Sinto meu peito ofegar.
Ao entrar o vejo de olhos fechados, mas sei que está acordado. Jogo a toalha no chão e espero por dois segundos que ele abra os olhos. Mas ele não o faz.
Vou ao guarda-roupa, abro, pego um pijama vermelho de seda, visto e sento na cama, ao seu lado. Ele continua imóvel, mas no seu silêncio já ouço sua respiração ofegante. Pego o controle da TV e fico trocando de canal, acho que esse é o maior sinal de que estou pronta.
Desisto.
Desligo a TV.
Ele
O interruptor elétrico clica, a luz apaga, ela vem vindo para o quarto.
Congelo.
Entra, joga a toalha no chão, abre o guarda-roupa e veste algo.
Eu continuo de olhos fechados.
Senta na cama, dá mais uma penteada no cabelo. Pega o controle, passa os canais e desiste em seguida.
Desliga a TV.
Ela está pronta.
Ela
Então me deito devagar. Pego meu travesseiro, bato, viro, amasso pra que fique do jeito que eu gosto e pra que ele entenda que não estou tão cansada assim.
Finjo perder o equilíbrio e esbarro nele, que quase fala algo. Mas desiste, nosso jogo é assim, não há como mudar.
Ele
Então se deita. Ajeita o travesseiro, bate, vira, amassa, talvez já ensaiando pra mais tarde. Insinua-se pra cima de mim fingindo perder o equilíbrio.
Ela
Apago a luminária, chego pra bem perto dele, sinto seu cheiro e faço um carinho em seus cabelos. Ele se entrega. Colo a boca no seu ouvido e falo um monte de coisas sem nexo, de amor, de desejo, e ele sorri. Não abre os olhos, mas arrepia.
A cama range de novo e agora num ritmo constante.
Ele
Ela apaga a luminária. Com a mão ensaia um carinho tímido no meu cabelo. Respira fundo e sussurra meia dúzia de palavras sem sentido no meu ouvido, que arrepia primeiro, pra depois todo o corpo.
A cama range de novo e agora num ritmo constante.
Ela
É assim quase sempre.
Toda vez que chego conforto-me no silêncio dele enquanto eu, barulho a barulho, vou me entregando.
Ele
É assim todo dia, ou quase todos.
Reconheço todos os seus sons e devolvo o meu silêncio, por que assim posso senti-la por completo. A cada dia decoro essa cena pra que tudo seja perfeito sempre, e é.
- Foi impressão minha ou você fez que sim com a cabeça entre a quarta e a quinta taça de vinho? Tá certo, o vinho é vagabundo, vai ver você já está ficando bêbado, sabe como é, dá uma tremedeira mesmo. Mais alguns 20 anos e talvez comece a entender um pouquinho de você. Nossa! Você tá tão quieto hoje, fica aí com esse olhar vazio. Tá entediado? Pois é, eu falo demais mesmo. Também, esse macarrão ta horrível né? Uma massaroca esquisita! Ai, será que você tá entalado? Quer que eu bata aí na suas costas? Na verdade eu não entendi muito bem aquele seu “obrigado” da nossa última conversa. Você chegou a usar o presente? Funcionou? É que eu já tinha comprado antes de você decidir ir embora, aí sabe como é, resolvi deixar lá na sua mesa. Sabe o que é estranho? Aquelas últimas músicas que você me deu sumiram todas. E antes que você me pergunte eu não apaguei não, pelo menos não por querer. Você sabe que eu vivo brigando com o computador. Tentei até baixar algumas delas de novo, mas cara, não acho em lugar nenhum. Não agüento mais esse macarrão, chega. Será que a gente pede mais um vinho? To ficando meio bêbado já. Tô achando que eu peguei meio pesado naquele último email que tem mandei, né? Você tá com uma cara péssima, tá chateado, né? Mas tenta entender, porra, fiquei muito chateado com a sua atitude, coisa feia mesmo. Ah! Te contei aquela piada da loira usando o computador? Ih! Que foi? Não tá afim né? Já entendi, foi mal. Era pra você sim o último texto do blog, a propósito. Você reconheceu, né? Sabe que ando em pânico com essa coisa do blog? Outro dia uma garota do trabalho disse que leu umas paradas, tenso isso né? Fiquei lendo e relendo tudo pra ver se tinha erro de português. Bad trip total... Você tá mais forte né? Tá pegando pesado na academia? Te falei que voltei a malhar né? Quase trinta já, tá na hora de tomar vergonha na cara. Te falei, né? Porra, você não vai falar nada mesmo? Não sei pra quê veio então...
Fim do primeiro ato. (E, de fato, fim de tudo – o personagem 2 retira-se, mais mudo que nunca. É o fim da peça também.)
Eu não gosto muito de verão não. Por muitas vezes acho o calor que faz aqui no Rio uma coisa perto do insuportável. É um calor que só aceita como adjetivo "senegalês". Calor senegalês, é isso. Mas eu sei que sou uma exceção porque 99% dos cariocas vive só pra esperar o verão. Eu senti isso na pele quando tive que esperar 20 minutos pra correr na esteira da academia porque não cabia mais ninguém. "Tá todo mundo querendo fritar na praia", me explicou o treinador.
Eu sei é que a felicidade é tanta que por vezes até contagia. Ontem mesmo, com aquele calor todo, resolvemos dar uma volta ali pelo Aropoador e Ipanema. Já passava das oito da noite, mas muita gente ainda estava na areia, sungas e biquinis, muito papo, muita diversão. E o mais engraçado é que os grupos são sempre grandes, porque carioca que é carioca aproveita a praia em bando.
Passei perto de um grupo de mais ou menos 10 pessoas, e ouvi alguém falando ao celular: "Encontra com a gente ali na casa da Bruna, na esquina da Prudente com a Vinícius. A galera tá indo toda pra lá." Fiquei pensando na Bruna e em como o verão levava os amigos pra casa dela. Provavelmente a Bruna mora sozinha, ou divide o apartamento com mais amigos. Mas nos dias de praia ninguém se importa com a casa cheia de areia, com o aperto do banheiro ou com as toalhas todas molhadas. No verão, todos os amigos da Bruna querem é aproveitar o sol e o mar. E com a Bruna, de preferência.
Eu tenho um problema. Um problema grande. Simplesmente não consigo dar crédito a pessoas que não sabem combinar roupa e que não sabem escrever. Mas não é uma implicância só não, é um ponto de corte mesmo. Pode me chamar de fútil, de cruel, mas gente! Sou assim, oras... Dá pra imaginar você chegando no cinema com uma pessoa que insiste em colocar um casaco xadrez por cima de uma blusa preta de bolinhas amarelas? Ou responder qualquer coisa que seja pra uma pessoa que manda um torpedo com um "vem MIM encontrar?". Não. A gente fica anos numa faculdade, lê um monte de coisas, se esforça pra acompanhar o mínimo que seja da crise mundial e o cidadão não se dá o trabalho de decorar meia dúzia de pronomes? Francamente... E com a roupa é a mesma coisa. A gente se dá o trabalho de olhar no espelho, de folhear uma revista decente e, o pior, fica horas garimpando na Renner pra achar alguma coisa legal quando a grana tá curta e aí chega num encontro e dá de cara com alguém que veste calça cargo bege com camiseta cinza. Dá não minha gente, dá não.
Não tô dizendo que a pessoa precisa ser altamente letrada ou fashionista. Só precisa ter o mínimo de noção. Na dúvida, troque. Um exemplo? Minha tia queria deixar um bilhete pro marido deixar a luz da cozinha acesa, mas ficou em dúvida na hora de escrever "acesa". Inteligentemente ela virou o papelzinho e mandou: "Não apague a luz". Brilhante! Com a roupa é mais difícil, eu sei. Costumo chamar essas combinações esquisistas de pão-com-rosca. Porque? Alguém acha que pão combina com rosca? Não, né? Então... Na dúvida, vá de camiseta preta e calça jeans. Me faça esse favor.
Volta moleque, mas volta logo porque eu posso encher o saco. Pára com essa besteira de espiar de canto de olho porque eu olho, eu continuo olhando. Volta moleque, que sinto falta das tuas camisetas modernas, dos teus cachos rebeldes. Escreve pra mim meia dúzia daquelas letras que eu me derreto, juro que derreto.Volta moleque que sou capaz de escolher você, só você, e sou capaz de usar aquele nariz de palhaço, mas não pra sempre. É que já cansei de cortar caminho, cansei de falar baixo, de esticar o pescoço pra te achar. E eu tô puto porque apaguei seu nome do celular e aí fico achando que você pode ter feito o mesmo, porra, isso dói moleque. É que ensaiei tantos versos, roubei tanta flor e agora meu peito tá tão cheio deles que tô ficando sem ar e eu não sei por que não deságuo. Então você tem que voltar. Volta moleque. Não pensa muito não. Não pensa porque a vida é assim mesmo, a gente só precisa juntar a tua aquarela com meu pincel. E aí a gente pinta aquela praia pra gente correr, brincar de amor. Vem logo que perco até o medo de parecer ridículo. Volta moleque, pode voltar assim mesmo, não precisa decidir nada não. Posso ser seu psicólogo, sua academia, seu coral, me rouba logo porque posso ser o seu dia, inteiro, todos os seus dias. Mas volta logo, moleque, porque eu posso encher o saco.
Quando eu era moleque, por volta dos 10 anos, ganhei dois pintinhos. Na verdade eu ganhei um e minha irmã, que devia ter uns 5 anos, ganhou outro.
Os danados dos bichinhos eram lindos demais! Me lembro até hoje do meu pai chegando em casa com uma caixa de sapatos toda furada e mostrando pra gente aquelas duas coisas amarelinhas encolhidas num canto da caixa!
Eles foram batizados de Tutti e Arisco, não me lembro bem o porquê. A única coisa que lembro é que por um bom tempo aqueles dois pintinhos foram a diversão da casa. Até banho a gente dava. E eles eram super comportados. Lembro que a gente colocava os dois bichinhos em cima do skate, amarrava um barbante e saía puxando pela rua! E eles ficavam ali, quietinhos, aqueles pintos educados.
O problema é que os pintos cresceram, obviamente. E viraram dois frangos horríveis, de cor branca-amarelada, que fediam todo o terraço da minha casa (nessa época eles já se recusavam a tomar banho). E pra nós, eu e minha irmã, aqueles bichos medonhos nem de longe lembravam nossos pequenos e singelos pintinhos!
Até que um dia, voltando da escola, minha mãe nos deu a triste notícia de que Tutti e Arisco tinham fugido. “Eles saíram voando pela janela”, insistia a minha mãe. Não me lembro de ter chorado, mas a tristeza daquele dia eu recordo bem... A nossa tristeza só diminuiu quando a minha mãe falou que, para compensar a perda dos bichinhos, ela tinha feito a nossa comida favorita: frango! E a gente aceitou feliz, comeu e lambeu os beiços!
Ai que saudade dos meus tempos de criança! A inocência ameniza tanto sofrimento...
(Só depois de muitos anos minha mãe teve coragem de dizer que naquele dia almoçamos o Tutti e o Arisco. Ela dizia que esperou o tempo necessário para que fôssemos maduros o suficiente para rir ao invés de chorar).
Porque ela não usou a suas tranças pra fugir, por si só, do castelo onde estava apriosionada?
Mas agora entendo perfeitamente: a mocinha tinha era medo de enfrentar a realidade. Aprisionada ali, na sua torre, longe do mundo, ela estava imune a tudo e a todos. Assim, podia culpar a solidão e a bruxa por todos os seus fracassos.
Rapunzel preferia o seu castelo e o mundo que criou para si à aventurar-se pelo mundo real.
Sabia que algumas espécies de insetos vivem somente 24 horas?
Agora, se esse bichinho tivesse um mínimo de consciência, imagina como seria a sua relação com o tempo! Certamente ele não seria como nós, não dispensaria um segundo sequer de sua preciosa e efêmera vida. Ele não passaria mais de dois segundos escolhendo o que comer, menos de um segundo escolhendo com quem conversar e duvido que passasse qualquer fração de segundo aturando o que lhe não lhe fizesse bem ou que não lhe trouxesse absurdo prazer.
Deve ser por isso que esse insetinho tão simpático dedica-se quase que exclusivamente a reproduzir-se durante suas longas 24 de horas de vida.
Ah, então me deixe ser essa mosquinha! Não precisa de mais nada além de nascer, trepar e morrer. Assim mesmo, nessa ordem.
(Tá certo, já li em algum lugar que os homens e os golfinhos são os dois únicos animais que fazem sexo por prazer, mas vá lá, não sou biólogo e portanto não preciso confirmar a minha teoria furada...)
Minha mãe dizia que era por eu ser canhoto, mas nunca acreditei muito nisso.
Já me estabaquei no chão nas Barcas, já perguntei de quantos meses estava uma mulher que só era gordinha, já falei mal de irmão de amigo pro próprio amigo, já entrei em carro errado esperando carona, já fui pra festa errada e só percebi duas horas depois, já quase quebrei a roleta do metrô porque ela, estranhamente, não aceitava o crachá da minha empresa, já comi em pizzaria chulé jurando que estava na Pizzaria Guanabara e já quase coloquei shoyo no suco de uva.
E eu ainda tenho outro defeito: esqueço o nome de tudo. Pessoas, lugares, músicas, filme. Meu telefone então, esse eu nunca sei.
Eu achava que com o tempo isso ia melhorar, mas não aconteceu. Pelo contrário, acho que só piora. Agora tô errando até as palavras: em vez de dizer o portão tá fechado, digo o “fechão tá portado”. E nem percebo!
Aí fui falar com a proprietária do meu apartamento que eu queria tirar o buffet do banheiro porque ele não servia pra nada, só ocupava espaço. Ela não entendeu, e eu tive que explicar: buffet, aquele negócio tipo vaso sanitário que a gente lava a bunda... Ela perguntou: bidê?
Era.
Era bidê.
Outra coisa muito maluca é a minha relação visão/audição. O problema é que tenho 5 graus de miopia e não vivo sem lentes de contato, nunca. E aí, quando eu tiro as lentes pra dormir ou pra qualquer outra coisa, além de cego eu fico completamente surdo. Vai entender...
Minha terapeuta diz que é porque o meu cérebro sempre está a mil por hora e aí eu não dou conta de verbalizar tudo, o que acaba causando essa tempestade verborrágica. Mas não sei não, ando meio desconfiado dela. Acho que é porque até hoje não sei se ela chama Andréia ou Adriana, sempre confundo esses nomes.
Um amigo natureba falou que eu devia comer mais banana, por conta do potássio, ia ajudar com as tais sinapses e tal, e que isso melhoraria a memória. Mas aí eu fui até o mercado e comprei uma dúzia delas. Só que comprei maçãs, eu jurava que era isso que meu amigo tinha recomendado...
Confesso que já tô me acostumando com essa loucura toda. E ando desenvolvendo técnicas ótimas pra não errar mais. Quando anoto um nome no celular, por exemplo, sempre coloco uma referência pra não confundir. Assim: André amigo Eduardo. Mas quem é Eduardo mesmo, meu Deus?!?!
E como não tem jeito, nem remédio, vou levando a vida assim mesmo.
(Inspirado na música "Tudo vai ficar bem", banda Cof Damu)
Lá no alto daquele monte, querido Tem uma casa que poderia ter sido nossa (ainda bem que você não me escolheu) Porque a casa não quis sequer abrir as portas Para o nosso caso entrar.
Antes que a fizéssemos ruir (aquela casa que poderia ter sido nossa) Tivemos certeza que era ele (aquele sentimento que a gente nem soube o nome) Quem deveria partir sem voltar mais.
“Ainda que nas tardes ela possa escutar (em suas paredes o que ele a fez sofrer) Não teve medo de deixar assim O vento entrar Pela janela de estar”
Nós não fomos ao cinema Nós não jantamos juntos Nunca tomamos um vinho A gente não saiu pra dançar Não fizemos aniversário de namoro Não trocamos cartões Não fizemos amor (sonho conta?) Não chegamos a dizer “eu te amo” Não ousamos o “gosto de você” Nem beijo a gente deu Não andamos na Lagoa Não tivemos um cachorro Não viajamos juntos Não nos prometemos nada A gente não dormiu junto A gente não acordou junto E eu nem conheço seu corpo Não nos falamos por telefone Não tivemos apelidos carinhosos A gente nunca se deu boa noite! Não sei qual o seu cheiro Não conheço seu mau humor Nem brigas a gente teve Tampouco reconciliações Nós não vimos juntos um dia de chuva Não fomos à praia Não tomamos chopp Não tivemos um único amigo em comum.
Agora me diz: se nunca tive porque dói tanto agora que ainda não tenho?
O que nos separa tem nome O que nos uniu, não. O tempo que me fez ser quase seu foi curto O que levará para curar, não. Os seus recuos, estes foram muitos As tentativas, nenhuma.
E ai a gente, tortuosamente, Acabou fazendo uma história Que nasceu de um sonho Mas sucumbiu à realidade.
Triste realidade.
Agora eu só tenho o seu nome E uma dúzia de músicas Mas eu já tive mais Eu quase tive Antes de deixar escapulir por entre os dedos.
Agora eu tenho só aquele sonho E uma vaga lembrança do calor Mas eu tive mais Eu quase tive Antes de ouvir você dizer que prefere manter-se acordado.
Agora eu tenho sua vontade de ver meu sorriso E quase nada de força Mas eu tive mais Eu quase tive Antes de você olhar meus olhos e não enxergar o fundo.
Agora tem essa linha invisível entre nós E essa impermeabilidade forjada Mas eu tive mais Eu quase tive Antes de entender que você não deseja mais que o “quase”.
Hoje não há tédio nenhum, mesmo pra um domingo chuvoso.
Agora então, já quase no final do dia, onde a companhia é de meia dúzia de músicas emotivas, três latas de cerveja perdidas na geladeira e um maço de cigarros, há uma imensa paz pairando. Estou completamente ciente de mim, como se tivesse acabado de sair da alta de uma terapia. Não há mais nó na garganta, não há mais pendências, pelo menos nenhuma comigo mesmo. Talvez ainda haja uma ou outra, é fato, mas essas me parecem perfeitamente resolvíveis, a curto ou a longo prazo, não importa. E se me perguntarem, não há razão ou segredo algum pra isso.
Mas olhando agora, vejo que as pessoas insistem em se apegar aos fracassos, às tristezas e aos domingos chuvosos. Eu mesmo sou assim quase sempre. Hoje não, hoje eu esqueci o celular de lado, desconectei a internet, fiquei comigo mesmo, vi fotos antigas, li o jornal inteirinho e senti cada segundo do dia.
A amiga querida ligou cedo, o amigo especial chorou no almoço, o jovenzinho promissor mandou torpedos sensacionais e eu acabei achando meu lugar no mundo. Por quê? Porque hoje eu senti que quando a gente vive cada segundo, quando a gente se entrega ao presente e deixa de lado essa babaquice absurda de querer adivinhar o futuro, aí é que a gente vive. E olha que sou capricorniano!
A gente tem mania de atribuir nossas felicidades e infelicidades a outras pessoas. No trabalho sempre tem um sacana que quer puxar seu tapete, no amor tem sempre aquele insensível que não entende a grandeza do seu sentimento. Bobagem. Não há ninguém no mundo que nos sabote mais do que nós mesmos. Pro amigo que chorou e pra mais um milhão de pessoas é essa a resposta: não há maré ruim, na maior parte das vezes é só tristeza forjada por nós mesmos pra justificar algumas coisas que queremos, mas não temos coragem de admitir. A gente vale muito mais do que divulga (eu sei, há exceções, não as desconsidero...).
Quando termina um relacionamento, por exemplo, a culpa é sempre do outro. Mas será que não é nossa mesmo? No meu caso é. Eu é que fui burro em não perceber os sinais do outro, eu é que não quis enxergar a relação se evaporando e, quando o outro resolveu sinalizar, só aí eu gritei. Se tivesse gritado antes, nada disso teria acontecido.
De uma vez por todas é preciso compreender que a única coisa que nos acompanha durante toda a vida é nossa própria consciência. Só a ela devemos total fidelidade. A gente passa tanto tempo tentando agradar aos outros, pedindo desculpas, mandando flores, comprando cartões de aniversário pros amigos, querendo parecer vencedor pra família. E pra nós mesmos, o que fazemos? Quando é que pedimos desculpas a nós mesmos por termos nos machucado, por ter permitido se ferir pelos outros, por ter colocado outras pessoas em primeiro plano?
É preciso encarar de frente os domingos chuvosos, os sábados sozinhos, o telefone que não toca. Sorria disso, não chame de solidão, sinta, deixe o relógio passar, viva. Fique com você mesmo, se reconheça, se conheça. É assim mesmo, é a vida, é a rotina, não há nada de errado comigo, não há nada de errado com ninguém. Somos só diferentes e viva a diversidade. Amanhã você se apaixona de novo, amanhã você é reconhecido no trabalho, amanhã sua família vai fazer a maior propaganda das suas vitórias. E depois de amanhã você leva um pé na bunda, começa a achar que ganha pouco pelo tanto que trabalha, ouve sua irmã te chamar de deslumbrado. Mas os dias passam, sempre, é um ciclo, os livros de auto-ajuda têm razão! Mas só nesse aspecto, por favor.
No próximo sábado pode ser que o celular não pare de tocar, que todos os amigos queiram a sua presença, que surjam mil encontros e que você descubra um novo amor na banca de jornal em frente à sua casa. Pode ser que faça sol no domingo e que você vá a praia pela primeira vez com seu novo amor! A gente só não pode desconsiderar os domingos chuvosos.
Só você é capaz de suscitar tanto em mim só você é capaz de me tornar esse turbilhão essa voracidade essa vontade de correr e escrever sem pontuar porque você não pontua nunca! só você me desperta de madrugada me faz passar uma duas noites em claro tendo pesadelos horríveis e mesmo assim só você é capaz de desfazer todo mal com um bom dia porque só você e aí só você mesmo ainda é capaz de me dar arrepios no bom e no mal sentido de me fazer ir ladeira abaixo e parede acima só você sabe me fazer gritar e calar nem sempre na hora certa mas sempre com a mesma intensidade.
Respire
Só você bate a porta e abre de novo com a mesma naturalidade de quem nunca saiu só você sabe não atender quando ligo e responder com declarações de amor dois dias depois só você sabe sorrir com essa displicência e descompromisso e esse descompromisso que só você tem sabe como ninguém me deixar de ponta cabeça pensando onde errei onde erramos onde isso vai parar?
Respire Respire
E aí você insiste em ir embora. Você que não sabe colocar nem vígula, agora insiste em colocar um ponto final.
Mas eu prontamente aceito. De fato eu já estava ficando sem ar...