20 de jul. de 2009

Presentinho!


Eu tenho uma grande amiga hoje.
Uma amiga que acaba de ganhar esse posto porque perdeu o de grande amor, ela não quis e eu confirmei.
Essa amiga tem tomado um lugar importante na minha vida, no meu dia-a-dia, na minha lista de afetos-antes-desafetos. Lista cada vez maior inclusive. Porque vou me reconhecendo a cada dia pelo outro, pelos outros, tem jeito não, sou assim mesmo.


Ainda não temos muita história pra contar, é verdade. A maior parte das lembranças ainda diz respeito a parte onde havia só um descaso. É que foi bem recentemente que ultrapassamos a linha que separa nossos bairros e nossas intenções.


E por conhecê-la ainda tão pouco é que ando fissurado por descobri-la.
Não por inteiro que é pra não perder a graça, mas pelo menos a ponto de não duvidar.
A tarefa não é fácil. Ela anda meio arredia, meio egoísta, abriu mão de ser ela mesma durante muito tempo e agora não quer aceitar nada que não seja genuinamente seu.
E aí ela reclama quando eu falo fazendo manha, diz sem o menor pudor que eu sou capiau e de quebra ainda afirma categoricamente que sou deslumbrado.
Mas eu não me chateio não. Entendo bem esse momento. Ainda mais no caso dela, tão perfeitinha e matemática, ainda muito apavorada pra considerar variáveis que ela não pode controlar. Aí eu ouço, pego o que há de bom e sigo cultivando esse sentimento tão gostoso.


Talvez eu conheça minha amiga mais do que ela a mim. Talvez eu saiba exatamente o que ela espera de mim e talvez por isso eu faça quase sempre o contrário que é pra mostrar pra ela que o mundo continua o mesmo e que as pessoas não vão ser diferentes só porque ela tá de saco cheio.

Essa minha amiga é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço. É vaidosa também. E adora elogios. Quando eu não os faço por mera constatação ela sempre arruma uma forma de me fazer dizer, ainda que indiretamente.

A verdade é que me sinto bem ao lado dela. Gosto da forma como me confronta, como ri e do jeito meio sapeca de olhar pra mim quando acha graça. Ela sempre acha graça de alguma coisa e eu preciso aprender isso com ela.


Mas o que mais gosto nessa minha nova amiga é sua grandeza. A grandeza que ela mesma não sabe entender, por isso se perde tanto. Ela brilha diferente, guarda um destino tão grande quanto ela, mas não vai saber como ir atrás dele enquanto não parar de perder tempo com inseguranças bobas.

Enquanto isso a gente vai se divertindo, muito.
Hoje mesmo, quando ela chegar aqui e eu disser que tem um texto pra ela no blog (e que o texto não é antigo!) ela vai ficar curiosa e vai rir. Mas não vai ficar muito curiosa não, nem vai se empolgar muito porque ela não me dá muita bola (mas vai se mijar quando ler a parte do capiau!).
Aí eu vou dizer que hoje é dia do amigo e por isso resolvi falar dela no blog. Ai ela vai gargalhar, dizer que nem sabia que existia um dia do amigo e provavelmente vai fazer um "argh!" pra mim porque acha isso meloso demais.
Depois vamos trocar nossos apelidos carinhosos - suína e eqüino - e vamos mudar de assunto.

As outras coisas já são sérias demais por isso a gente só quer saber de rir.

19 de jul. de 2009

De quando eu não consegui chegar até você...

São seis horas da manhã e meu celular toca.
É um manhã de sábado chuvosa, ainda está escuro. Dentro e fora de mim.
Há três meses espero por este momento.
É você quem me liga.

Então você imita a chuva e desagua.
Você diz que me ama; diz que não sabe como sobreviveu esse tempo todo sem mim; diz que sente falta dos meus olhos em você; diz que ainda estremece quando lembra do calor que as pontas dos meus dedos têm.
E vai dizendo tudo, todo o texto que eu ensaiei para você. Todas as letras e todas as escalas, os meandros, os subtextos. Você acerta até as pausas, os silêncios todos, as pontuações.
Você passa exatos 21 minutos se desculpando e me pedindo pra voltar.
Voltar?
Não.
Você me pede para eu ir.
Para ir até você pela primeira vez.

A chuva pára no 22° minuto.
Esqueço da minha parte do texto.
Aí eu digo para você que só preciso de 10 minutos para chegar até a sua casa.
Você me diz que é muito.
Você diz que vai me encontrar na metade do caminho.
Cinco minutos é o máximo que você deseja esperar por mim.
O dia já brilha lá fora. Fora e dentro de mim.
Não há mais sinal daquela chuva.

Aí eu desligo o telefone, lavo o rosto, coloco um boné e saio.
O elevador leva uma eternidade para chegar ao térreo. Estou com o coração na boca.
Eu saio quase correndo.
Vou passando as esquinas como quem passa as páginas de um livro. Vou deixando os caminhos e as histórias para trás. Estou indo atrás das novas páginas em branco.
Mas aí, pouco antes do Largo do Machado, meu coração pára. Eu caio.
E a última imagem que vejo é você. Quase perto, quase longe. Como sempre esteve.
Aí eu morro.

É, mais uma vez eu não vou ser seu.
Dessa vez definitivamente.


(Rio de Janeiro, Fevereiro/2009
Mais um fragmento da série "as coisas que escrevi e que não podiam ser ditas". Me sinto aliviado em dizê-las agora.)

4 de jul. de 2009

Eu, Clarice e o Menino Mudo dos Cachos

Porque eu escrevo se você não vai ler?
Porque sigo vomitando esses escritos tolos e pobres de significado se não sou mais que uma sequência alfa-numérica de quatro dígitos apenas?
Sou uma combinação numérica e um nome que nem é meu.

Começo assumindo uma fraqueza, a primeira delas: tenho medo escrever. Um medo absurdo de escrever sobre você.
Medo de mexer com aquelas coisas engavetadas, aquelas coisas que mínguam na superfície e mergulham suas raízes grossas aonde eu mesmo não sei chegar.
E muito menos sair.

Mas eu escrevo assim mesmo por que escrevo pra responder alguma coisa que pergunta.
E escrever pra você é mais ainda. É procurar sentir até a última gota do que permanece vago e assustador.
É como se o papel fizesse de conta que é você e então há um diálogo.
E o papel, como você, mudo e duro, aceita os escritos todos e diferente de você vai oferecendo a própria pele pra servir de tela, aí a coisa toda vêm à tona, machuca primeiro, rasga a terra e brota e floresce.

Não, escrever não vai alterar nada.
Mas porque você insiste em achar que eu quero alterar alguma coisa? Você não precisa dizer mais nada.
Você já fez as perguntas.
Eu é que estive atrás das respostas. Escrevo porque preciso desabrochar de uma forma ou de outra.

Você.
Engraçado como essa palavra cabe em tantas outras e triste como você a cerrou em significados.
Você pra mim é essa dor pontiaguda de te olhar todos os dias e não ver nada.
Você pra mim é só um não saber conjugar qualquer verbo porque você mora no presente.
E pra não desaguar é que desabrocho.
E pra não errar o tempo verbal é que escrevo.
Fui, quis, sofri, sonhei. Eu sou passado.
A escrita é o futuro. E o futuro não comporta nós dois, nós três, você.

E nesse mundo que crio quando escrevo, nesse mundo você é outro do que é agora. Nesse mundo você é o que deveria, o que verdadeiramente deseja, você é sem pedir licença ou desculpa a quem se ofende. Nesse mundo você é o menino dos cabelos cacheados, soltos e rebeldes, que sorri alto e que não emudece mesmo quando entristece.
Nesse mundo aqui você é livre, você pode voar e pode desprender essas suas asas, cortar essas raízes e criar uma existência que é só sua.
Porque você é grande, mas não entendeu minhas perguntas.
Está buscando as respostas, mas nem sabe as perguntas!
Então eu te digo: não há respostas.
Só há perguntas.

Quer saber?
Vamos arriscar tudo?
Quem é você sem o outro?



(Esse texto foi escrito em Dezembro/2008 e agora pode ser postado. Ele é um recorte de impressões minhas e trechos da Clarice Lispector. Hoje, julho/2009, o menino não é mais mudo, mas ainda não tem cara!)



10 de jun. de 2009

Velho bar

Não, eu não tenho a menor pretensão de ser meu nome essa borboleta a te visitar durante a noite assobiando.

Desejo só um modesto lugar na sua velha casa
não precisa ser nem cadeira cativa
Mas que seja suficientemente forte
Para cessar o seu choro.

Aí quem sabe nós
(eu e você)
possamos re-conhecer as agruras dos nossos corações
para em seguida bebê-las,
uma a uma
gole a gole
(ao seu tempo)
aqui no meu bar?

6 de abr. de 2009

O dia em que fui mais feliz (ou "Autoajuda 2")


Eu me lembro exatamente o dia mais triste da minha vida.
Foi um só, foi arrebatador.

Mas o dia mais feliz da vida, esse eu juro que não sei.
E não é porque eu não tenha tido. É exatamente o contrário.
Eu tive vários e tantos que não sei precisar qual deles foi o mais intenso, o mais incrível.
O melhor é que sigo colecionando esses dias, pelo menos uma vez ao mês eu tenho um dia mais feliz da minha vida.

De tanto ser assim eu passei a reconhecer os dias mais felizes das pessoas à minha volta.
A moça que senta aqui ao meu lado no trabalho, por exemplo.
Hoje é o dia mais feliz da vida dela.
Ela cortou o cabelo e todo mundo notou. Todo mundo elogiou. Em agradecimento ela sorriu de um jeito tão colorido que eu entendi: pronto, é o dia mais feliz da vida dela. Pelo menos o desse mês. Amanhã ela lembra dos problemas todos, porque sim, ela tem muitos. Hoje não.
Parece pouco, né? Mas não é não. É muito! Pra ela é muito.
Pra ela e pra todo mundo que entende que felicidade é assim mesmo. Um momento, uma fração, rapidinha, um segundinho. Aí é com você: ou você guarda ou desperdiça. Mas se guarda, aí é o tal do dia feliz.

E existem outras maneiras de ter dias felizes também.
Aqui no Rio tem um monte de lugar que já tem dias felizes prontinhos, é só chegar e pegar.
Ontem mesmo eu fui pegar o meu ali na Lagoa. Um belo domingo de sol, um passeio de bicicleta ao lado de quem me faz feliz e bingo! O mês nem bem começou e já tive o dia mais feliz da minha vida!

Reparou?
O dia mais triste da minha vida é um só.
O dia mais feliz não dá nem pra ser escrito no singular, não soa bem.
Porque tristeza a gente quantifica e felicidade a gente qualifica.
Aí é batata.

11 de mar. de 2009

Vida real

Ele estava na fila, mas ainda não tinha decidido o que beber.
Aliás, ele não tinha decidido nem entrar na fila, apenas achou menos solitário estar ali entre aquelas pessoas que pareciam tão certas do que faziam.
Pediu uma vodka com energético.
Não, pediu só a vodka mesmo, com gelo, precisava dormir aquela noite. Sentou-se na primeira cadeira que encontrou.


Ele havia pedido demissão há dois dias. Não estava feliz no emprego, não ganhava bem, não via perspectiva alguma de crescimento. Não era suficiente? Para ele sim.
Estava certo da decisão, só não sabia como contar à namorada.
Amava-a mais que tudo, sonhava com os filhos, sonhava com longos e eternos dias de paixão e bons dias.
Então quando enfim criou coragem para contar, antes que ele pudesse abrir a boca, ela terminou com ele. E não quis nem saber o quê ele tinha a dizer. Disse que até gostava dele, mas não o suficiente para imaginar uma vida a seu lado. Isso tudo minutos antes dele chegar àquela fila onde começou essa história.


O copo de vodka estava chegando ao final.
Não, ele não queria se embebedar nem estava mortalmente ferido. Estava dormente, só isso.
Primeiro escolheu perder aquilo não o fazia feliz. Depois escolheram perder aquilo que o fazia feliz. E foi assim que ele perdeu tudo, de uma tacada só.
Pediu mais uma vodka, percebeu que o bar estava ficando vazio.
Estranhou-se. Era comum ficar tonto com qualquer coisa, mas estava extremamente sóbrio e lúcido.
Bebeu a segunda dose quase que num único gole.
E resolveu ir pra casa.

AGORA VOCÊ ESCOLHE O FINAL:

FINAL 1
Assim que saiu do bar resolveu parar para amarrar o cadarço (estava com medo de tropeçar, não queria levar outro tombo, não naquele dia).
Quando levantou, sentiu-se ligeiramente tonto e fraquejou. Foi tentar se apoiar na parede e pronto! Acabou derrubando uma inocente moça que por azar passava ali naquele momento. Azar? Não mesmo.
Ela o acusou de bêbado.
Ele riu, disse que não era apesar de ter bebido duas vodkas.
Ela disse que duas vodkas em plena segunda-feira era coisa de bêbado.
Ele completou e disse que além de bêbado era desempregado e largado.
Ela riu. Achou-o simpático e bem humorado.
Ele viu que ela estava com um disco da Billie Holiday na mão. Achou engraçado ela ainda ter um vinil. Comentou.
Aí os olhos cruzaram-se.
Borboletas no estômago.
Foram tomar um café.
Apaixonaram-se perdidamente.

FINAL 2
Assim que saiu do bar resolveu parar numa banca para comprar um maço de cigarros. Ele não fumava, mas achou divertido tentar aquela noite. Então atravessou a rua.
Quando estava quase chegando ao outro lado, viu uma bonita moça que atravessava com um vinil da Billie Holiday debaixo do braço. Achou tão inusitada aquela cena que ficou ali acompanhando.
Com o descuido, quase foi atropelado.
O carro parou a meio metro da sua perna direita.
O motorista desceu do carro e o acusou de bêbado.
Ele riu, disse que não era apesar de ter bebido duas vodkas.
O motorista disse que duas vodkas em plena segunda-feira era coisa de bêbado.
Ele completou e disse que além de bêbado era desempregado e largado.
O motorista riu. Achou-o simpático e bem humorado. Perguntou com o que ele trabalhava.
Publicidade.
E o motorista contou que era dono de uma das maiores agências de publicidade do país.
Foram tomar um café.
Tornaram-se sócios.

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P.S.: Sei que é tentador, sei que você ficou em dúvida sobre qual final ele merecia, os dois são maravilhosos e românticos, cada um a sua maneira.
Mas a vida é real. E se você quer saber a verdade, por favor, não fique decepcionado, mas nenhum dos dois finais aconteceu a ele naquele dia.
Ele saiu do bar, amarrou o cadarço, atravessou a rua, entrou na banca, comprou um cigarro, foi fumando no caminho pra casa, abriu a porta devagar para não acordar a mãe, entrou, tomou um banho, deitou na cama e dormiu.
Triste?
Ele não.
Ele dormiu feliz por saber exatamente por onde devia começar no dia seguinte.

26 de fev. de 2009

Ô abre alas que eu quero passar...

A gente brincou sem máscara nesse carnaval.
A gente não ouvia samba quando se conheceu e é bem verdade que eu esqueci seu nome.
Aí você me embolou nos seus braços e eu não lembro se foi antes ou depois que me dei conta do quanto seus olhos eram calmos.
Eram cinco da manhã? Talvez mais?
Não sei mais, só sei que o tempo se adiantou e chegamos na primavera sem sequer passar pelo outono.
Bosques de flores brotavam no caminho que fizemos na volta, eu e você, que não decidimos nada, só seguimos.
Talvez aquela fosse uma tentativa de prolongar a noite, que já era dia. Uma tentativa de nunca ser amanhã, de ser pra sempre hoje. Acho que pensamos que pudesse ser só mais um amor de carnaval, efêmero. Mas não, era primavera já.
Você entendeu, eu também.

Agora você brinda-me com seus números, com essa serenidade tão feroz.
Você é um oásis no meio do seu próprio deserto.
E quando você me abriu as portas desse oásis eu bebi da sua água, da sua água fresca, ouvi suas histórias, vi suas marcas, chorei e sorri a sua história e então embolei você nos meus braços porque já eram quase sete horas.
Aí eu decorei seu sorriso e o toque que meus dedos experimentaram na sua pele.
Aí eu apertei o seu braço e tomei seu sorriso, mas te deixei o meu.
Agora tem um pouco de você em mim.

Eu sei que depois dessa primavera vem um verão.
Sempre tem verão depois da primavera.
Mas enquanto houver flores nesse caminho e auroras em seus olhos, meu querido, então não há de se temer o calor nem as tempestades.

11 de fev. de 2009

Ela e Ele (reedicão!)



Ela

Bato a porta do táxi com força e aperto o botão da portaria. Ouço passos na calçada e tenho medo, mas logo vem o clique do portão abrindo e entro depressa. Digo boa noite ao porteiro quase mecanicamente. Já é tarde e só penso em estar com ele.

Quando o elevador fecha a porta vejo que já é meia-noite.


Ele

O ponteiro dos segundos vai passando e ouço os barulhos soando numa contagem regressiva. É silêncio profundo. É escuro também, e profundo, não vejo absolutamente nada.

Escuto o estalo que escapa dos ponteiros do relógio quando eles se juntam, à meia-noite.

Pontualmente surge o barulho do elevador.

Ela está subindo.


Ela

Penso nele novamente e o elevador pára. A porta se abre e sinto o coração bater forte. Ando em direção à porta ansiosa.


Ele

O elevador pára e as portas se abrem. Passo a passo ela vem chegando e pelo barulho agudo que seus pés causam percebo que ela usa suas sandálias de salto alto pretas que deixam seus pés magníficos. Seus passos são descompassados como se tivessem pressa.


Ela

Abro minha bolsa e procuro minhas chaves: porque será que nunca sei onde elas estão? Quase levo a mão à campainha, mas acabo achando a chave bem lá no fundo. Imagino que ele já saiba que estou à porta.


Ele

Ela pára um instante e meu peito se enche. Ruídos dela mexendo na bolsa: por que será que ela nunca sabe onde está sua chave? Por um momento já espero a campainha tocar, mas ela vai abrindo a porta devagar e silenciosamente, imaginando que já durmo.


Ela

Lá dentro há um silêncio profundo, como sempre.

Jogo minha bolsa pelo chão, estou realmente cansada hoje. Vou a geladeira, faço bastante barulho pra ele perceber que cheguei. Mexo em qualquer coisa, bebo água.

Depois de um breve silêncio, abro meu zíper devagar e sei que agora ele deve estar sorrindo porque adora esse momento.


Ele

Ouço sua bolsa cair pelo chão da sala seguido de um longo suspiro de cansaço. Abre a geladeira, mexe em algo, pega um copo e bebe alguma coisa em grandes goles.

Barulho de zíper abrindo.

Sorrio.


Ela

Vou andando cambaleante para o banheiro pensando numa ducha bem quente. Entro, tiro a roupa, mas não fecho a porta pensando em ser surpreendida. Deixo a água cair, me esfrego, tudo num ritmo bem constante pra que ele me perceba. Mas ele não aparece, então acabo logo e fecho o chuveiro. Ao mesmo tempo ouço ele virar-se na cama.


Ele

Seus passos agora são descompassados de cansaço e ela vai se arrastando pelo corredor até o banheiro, mas não fecha a porta. Vai tomar um banho rápido, eu sei. Chuveiro, água caindo, pele sendo massageada. Tudo é quase musical. Eu fecho os olhos já sabendo onde tudo isso vai dar. Mas ela ainda nem me procurou e por isso sou eu quem suspira agora. Eu me viro na cama e ela range. Ao mesmo tempo ela fecha o chuveiro, em uníssono.


Ela

Enxugo-me, pego a escova e fico penteando os cabelos por alguns segundos. Depois passo um hidratante no rosto e como não faço barulho, me divirto percebendo que ele deve estar pensando o que faço nesse momento porque há um silêncio tenso.


Ele

Ela enxuga-se, penteia o cabelo. Provavelmente por alguns segundos está passando algum creme no rosto, porque ela sempre faz isso e porque há um silêncio tenso.


Ela

Enrolo-me na toalha, apago a luz e vou andando para o quarto.

Sinto meu peito ofegar.

Ao entrar o vejo de olhos fechados, mas sei que está acordado. Jogo a toalha no chão e espero por dois segundos que ele abra os olhos. Mas ele não o faz.

Vou ao guarda-roupa, abro, pego um pijama vermelho de seda, visto e sento na cama, ao seu lado. Ele continua imóvel, mas no seu silêncio já ouço sua respiração ofegante. Pego o controle da TV e fico trocando de canal, acho que esse é o maior sinal de que estou pronta.

Desisto.

Desligo a TV.


Ele

O interruptor elétrico clica, a luz apaga, ela vem vindo para o quarto.

Congelo.

Entra, joga a toalha no chão, abre o guarda-roupa e veste algo.

Eu continuo de olhos fechados.

Senta na cama, dá mais uma penteada no cabelo. Pega o controle, passa os canais e desiste em seguida.

Desliga a TV.

Ela está pronta.


Ela

Então me deito devagar. Pego meu travesseiro, bato, viro, amasso pra que fique do jeito que eu gosto e pra que ele entenda que não estou tão cansada assim.

Finjo perder o equilíbrio e esbarro nele, que quase fala algo. Mas desiste, nosso jogo é assim, não há como mudar.


Ele

Então se deita. Ajeita o travesseiro, bate, vira, amassa, talvez já ensaiando pra mais tarde. Insinua-se pra cima de mim fingindo perder o equilíbrio.


Ela

Apago a luminária, chego pra bem perto dele, sinto seu cheiro e faço um carinho em seus cabelos. Ele se entrega. Colo a boca no seu ouvido e falo um monte de coisas sem nexo, de amor, de desejo, e ele sorri. Não abre os olhos, mas arrepia.

A cama range de novo e agora num ritmo constante.


Ele

Ela apaga a luminária. Com a mão ensaia um carinho tímido no meu cabelo. Respira fundo e sussurra meia dúzia de palavras sem sentido no meu ouvido, que arrepia primeiro, pra depois todo o corpo.

A cama range de novo e agora num ritmo constante.


Ela

É assim quase sempre.

Toda vez que chego conforto-me no silêncio dele enquanto eu, barulho a barulho, vou me entregando.


Ele

É assim todo dia, ou quase todos.

Reconheço todos os seus sons e devolvo o meu silêncio, por que assim posso senti-la por completo. A cada dia decoro essa cena pra que tudo seja perfeito sempre, e é.


Ela

Porque o amo com meus ruídos e no seu silêncio.


Ele

Porque a amo no meu silêncio e com seus ruídos.




2 de fev. de 2009

Monólogo para um ator decadente

Fala 1/ Personagem 1


- Foi impressão minha ou você fez que sim com a cabeça entre a quarta e a quinta taça de vinho? Tá certo, o vinho é vagabundo, vai ver você já está ficando bêbado, sabe como é, dá uma tremedeira mesmo. Mais alguns 20 anos e talvez comece a entender um pouquinho de você.
Nossa! Você tá tão quieto hoje, fica aí com esse olhar vazio. Tá entediado? Pois é, eu falo demais mesmo.
Também, esse macarrão ta horrível né? Uma massaroca esquisita! Ai, será que você tá entalado? Quer que eu bata aí na suas costas?
Na verdade eu não entendi muito bem aquele seu “obrigado” da nossa última conversa. Você chegou a usar o presente? Funcionou? É que eu já tinha comprado antes de você decidir ir embora, aí sabe como é, resolvi deixar lá na sua mesa. Sabe o que é estranho? Aquelas últimas músicas que você me deu sumiram todas. E antes que você me pergunte eu não apaguei não, pelo menos não por querer. Você sabe que eu vivo brigando com o computador. Tentei até baixar algumas delas de novo, mas cara, não acho em lugar nenhum. Não agüento mais esse macarrão, chega.
Será que a gente pede mais um vinho? To ficando meio bêbado já. Tô achando que eu peguei meio pesado naquele último email que tem mandei, né? Você tá com uma cara péssima, tá chateado, né? Mas tenta entender, porra, fiquei muito chateado com a sua atitude, coisa feia mesmo.
Ah! Te contei aquela piada da loira usando o computador? Ih! Que foi? Não tá afim né? Já entendi, foi mal.
Era pra você sim o último texto do blog, a propósito. Você reconheceu, né? Sabe que ando em pânico com essa coisa do blog? Outro dia uma garota do trabalho disse que leu umas paradas, tenso isso né? Fiquei lendo e relendo tudo pra ver se tinha erro de português. Bad trip total...
Você tá mais forte né? Tá pegando pesado na academia? Te falei que voltei a malhar né? Quase trinta já, tá na hora de tomar vergonha na cara. Te falei, né? Porra, você não vai falar nada mesmo?
Não sei pra quê veio então...


Fim do primeiro ato.
(E, de fato, fim de tudo – o personagem 2 retira-se, mais mudo que nunca. É o fim da peça também.)

19 de jan. de 2009

No verão, quem mora perto da praia tem mais amigos.


Eu não gosto muito de verão não.
Por muitas vezes acho o calor que faz aqui no Rio uma coisa perto do insuportável. É um calor que só aceita como adjetivo "senegalês". Calor senegalês, é isso.
Mas eu sei que sou uma exceção porque 99% dos cariocas vive só pra esperar o verão.
Eu senti isso na pele quando tive que esperar 20 minutos pra correr na esteira da academia porque não cabia mais ninguém. "Tá todo mundo querendo fritar na praia", me explicou o treinador.

Eu sei é que a felicidade é tanta que por vezes até contagia.
Ontem mesmo, com aquele calor todo, resolvemos dar uma volta ali pelo Aropoador e Ipanema. Já passava das oito da noite, mas muita gente ainda estava na areia, sungas e biquinis, muito papo, muita diversão.
E o mais engraçado é que os grupos são sempre grandes, porque carioca que é carioca aproveita a praia em bando.

Passei perto de um grupo de mais ou menos 10 pessoas, e ouvi alguém falando ao celular: "Encontra com a gente ali na casa da Bruna, na esquina da Prudente com a Vinícius. A galera tá indo toda pra lá."
Fiquei pensando na Bruna e em como o verão levava os amigos pra casa dela.
Provavelmente a Bruna mora sozinha, ou divide o apartamento com mais amigos. Mas nos dias de praia ninguém se importa com a casa cheia de areia, com o aperto do banheiro ou com as toalhas todas molhadas.
No verão, todos os amigos da Bruna querem é aproveitar o sol e o mar.
E com a Bruna, de preferência.

25 de nov. de 2008

Pão-com-rosca


- Ei, isso não tá bom não...

Eu tenho um problema. Um problema grande.
Simplesmente não consigo dar crédito a pessoas que não sabem combinar roupa e que não sabem escrever.
Mas não é uma implicância só não, é um ponto de corte mesmo.
Pode me chamar de fútil, de cruel, mas gente! Sou assim, oras...
Dá pra imaginar você chegando no cinema com uma pessoa que insiste em colocar um casaco xadrez por cima de uma blusa preta de bolinhas amarelas?
Ou responder qualquer coisa que seja pra uma pessoa que manda um torpedo com um "vem MIM encontrar?".
Não.
A gente fica anos numa faculdade, lê um monte de coisas, se esforça pra acompanhar o mínimo que seja da crise mundial e o cidadão não se dá o trabalho de decorar meia dúzia de pronomes? Francamente...
E com a roupa é a mesma coisa. A gente se dá o trabalho de olhar no espelho, de folhear uma revista decente e, o pior, fica horas garimpando na Renner pra achar alguma coisa legal quando a grana tá curta e aí chega num encontro e dá de cara com alguém que veste calça cargo bege com camiseta cinza. Dá não minha gente, dá não.

Não tô dizendo que a pessoa precisa ser altamente letrada ou fashionista. Só precisa ter o mínimo de noção.
Na dúvida, troque.
Um exemplo? Minha tia queria deixar um bilhete pro marido deixar a luz da cozinha acesa, mas ficou em dúvida na hora de escrever "acesa". Inteligentemente ela virou o papelzinho e mandou: "Não apague a luz". Brilhante!
Com a roupa é mais difícil, eu sei. Costumo chamar essas combinações esquisistas de pão-com-rosca. Porque? Alguém acha que pão combina com rosca? Não, né? Então...
Na dúvida, vá de camiseta preta e calça jeans.
Me faça esse favor.

14 de nov. de 2008

Topa?

Volta moleque, mas volta logo porque eu posso encher o saco. Pára com essa besteira de espiar de canto de olho porque eu olho, eu continuo olhando. Volta moleque, que sinto falta das tuas camisetas modernas, dos teus cachos rebeldes. Escreve pra mim meia dúzia daquelas letras que eu me derreto, juro que derreto.Volta moleque que sou capaz de escolher você, só você, e sou capaz de usar aquele nariz de palhaço, mas não pra sempre. É que já cansei de cortar caminho, cansei de falar baixo, de esticar o pescoço pra te achar. E eu tô puto porque apaguei seu nome do celular e aí fico achando que você pode ter feito o mesmo, porra, isso dói moleque. É que ensaiei tantos versos, roubei tanta flor e agora meu peito tá tão cheio deles que tô ficando sem ar e eu não sei por que não deságuo. Então você tem que voltar. Volta moleque. Não pensa muito não. Não pensa porque a vida é assim mesmo, a gente só precisa juntar a tua aquarela com meu pincel. E aí a gente pinta aquela praia pra gente correr, brincar de amor. Vem logo que perco até o medo de parecer ridículo. Volta moleque, pode voltar assim mesmo, não precisa decidir nada não. Posso ser seu psicólogo, sua academia, seu coral, me rouba logo porque posso ser o seu dia, inteiro, todos os seus dias. Mas volta logo, moleque, porque eu posso encher o saco.
Aí fudeu.


Tutti e Arisco

Quando eu era moleque, por volta dos 10 anos, ganhei dois pintinhos. Na verdade eu ganhei um e minha irmã, que devia ter uns 5 anos, ganhou outro.

Os danados dos bichinhos eram lindos demais! Me lembro até hoje do meu pai chegando em casa com uma caixa de sapatos toda furada e mostrando pra gente aquelas duas coisas amarelinhas encolhidas num canto da caixa!

Eles foram batizados de Tutti e Arisco, não me lembro bem o porquê.
A única coisa que lembro é que por um bom tempo aqueles dois pintinhos foram a diversão da casa. Até banho a gente dava. E eles eram super comportados.
Lembro que a gente colocava os dois bichinhos em cima do skate, amarrava um barbante e saía puxando pela rua! E eles ficavam ali, quietinhos, aqueles pintos educados.

O problema é que os pintos cresceram, obviamente.
E viraram dois frangos horríveis, de cor branca-amarelada, que fediam todo o terraço da minha casa (nessa época eles já se recusavam a tomar banho). E pra nós, eu e minha irmã, aqueles bichos medonhos nem de longe lembravam nossos pequenos e singelos pintinhos!

Até que um dia, voltando da escola, minha mãe nos deu a triste notícia de que Tutti e Arisco tinham fugido. “Eles saíram voando pela janela”, insistia a minha mãe. Não me lembro de ter chorado, mas a tristeza daquele dia eu recordo bem...
A nossa tristeza só diminuiu quando a minha mãe falou que, para compensar a perda dos bichinhos, ela tinha feito a nossa comida favorita: frango! E a gente aceitou feliz, comeu e lambeu os beiços!

Ai que saudade dos meus tempos de criança! A inocência ameniza tanto sofrimento...

(Só depois de muitos anos minha mãe teve coragem de dizer que naquele dia almoçamos o Tutti e o Arisco. Ela dizia que esperou o tempo necessário para que fôssemos maduros o suficiente para rir ao invés de chorar).

13 de nov. de 2008

12 de nov. de 2008

The shame is manifest in my resistance...

I would've warned you, but really, what's the point?
Caution could, but rarely ever helps
Don't be down when my demeanor tends to disappoint
It's hard enough even trying to be civil to myself




(Fiona Apple, "To your love")

11 de nov. de 2008

Rapunzel


Nunca entendi muito bem a história da Rapunzel...
Porque ela não usou a suas tranças pra fugir, por si só, do castelo onde estava apriosionada?

Mas agora entendo perfeitamente: a mocinha tinha era medo de enfrentar a realidade. Aprisionada ali, na sua torre, longe do mundo, ela estava imune a tudo e a todos. Assim, podia culpar a solidão e a bruxa por todos os seus fracassos.

Rapunzel preferia o seu castelo e o mundo que criou para si à aventurar-se pelo mundo real.

10 de nov. de 2008

Mosquinhas espertas!

Sabia que algumas espécies de insetos vivem somente 24 horas?

Agora, se esse bichinho tivesse um mínimo de consciência, imagina como seria a sua relação com o tempo!
Certamente ele não seria como nós, não dispensaria um segundo sequer de sua preciosa e efêmera vida.
Ele não passaria mais de dois segundos escolhendo o que comer, menos de um segundo escolhendo com quem conversar e duvido que passasse qualquer fração de segundo aturando o que lhe não lhe fizesse bem ou que não lhe trouxesse absurdo prazer.

Deve ser por isso que esse insetinho tão simpático dedica-se quase que exclusivamente a reproduzir-se durante suas longas 24 de horas de vida.

Ah, então me deixe ser essa mosquinha!
Não precisa de mais nada além de nascer, trepar e morrer.
Assim mesmo, nessa ordem.

(Tá certo, já li em algum lugar que os homens e os golfinhos são os dois únicos animais que fazem sexo por prazer, mas vá lá, não sou biólogo e portanto não preciso confirmar a minha teoria furada...)

7 de nov. de 2008

O que eu não sou...


"Eu não sou poeta, nem quero ser
A canção eu fiz pra sobreviver
Coração aperta, canto pra respirar
Toco minha viola pra poder sonhar

Eu não quero nada que faz doer
Quero amar o mundo, quero amar você
Quando você não está eu vou tocar tambor
Extraviar no pulso toda a minha dor

Um dia o amor acaba
Invade e a dor deságua
Transborda a minha alma
Vazia está agora

Eu não sou maluco nem quero ser
Mas a noite passar e eu não vou dormir
As flores me agradam tentam me colorir
Toco uma toada pra poder te ouvir

Eu não sou ateu nem quero ser
Deus te abençoe, rezo por você
Eu vou tocar a flauta pra despedir
De longe minha alma vai velar por ti

Um dia o amor acaba
Invade e a dor deságua
Transborda a minha alma
Vazia está agora"

(Música: O que eu não sou/Chicas)

6 de nov. de 2008

Mr. Clumsy

(Fonte imagem: Google)

Desde menino eu sempre fui mega atrapalhado.

Minha mãe dizia que era por eu ser canhoto, mas nunca acreditei muito nisso.


Já me estabaquei no chão nas Barcas, já perguntei de quantos meses estava uma mulher que só era gordinha, já falei mal de irmão de amigo pro próprio amigo, já entrei em carro errado esperando carona, já fui pra festa errada e só percebi duas horas depois, já quase quebrei a roleta do metrô porque ela, estranhamente, não aceitava o crachá da minha empresa, já comi em pizzaria chulé jurando que estava na Pizzaria Guanabara e já quase coloquei shoyo no suco de uva.

E eu ainda tenho outro defeito: esqueço o nome de tudo. Pessoas, lugares, músicas, filme. Meu telefone então, esse eu nunca sei.

Eu achava que com o tempo isso ia melhorar, mas não aconteceu. Pelo contrário, acho que só piora. Agora tô errando até as palavras: em vez de dizer o portão tá fechado, digo o “fechão tá portado”. E nem percebo!


Aí fui falar com a proprietária do meu apartamento que eu queria tirar o buffet do banheiro porque ele não servia pra nada, só ocupava espaço. Ela não entendeu, e eu tive que explicar: buffet, aquele negócio tipo vaso sanitário que a gente lava a bunda... Ela perguntou: bidê?

Era.

Era bidê.


Outra coisa muito maluca é a minha relação visão/audição. O problema é que tenho 5 graus de miopia e não vivo sem lentes de contato, nunca. E aí, quando eu tiro as lentes pra dormir ou pra qualquer outra coisa, além de cego eu fico completamente surdo. Vai entender...

Minha terapeuta diz que é porque o meu cérebro sempre está a mil por hora e aí eu não dou conta de verbalizar tudo, o que acaba causando essa tempestade verborrágica. Mas não sei não, ando meio desconfiado dela. Acho que é porque até hoje não sei se ela chama Andréia ou Adriana, sempre confundo esses nomes.


Um amigo natureba falou que eu devia comer mais banana, por conta do potássio, ia ajudar com as tais sinapses e tal, e que isso melhoraria a memória. Mas aí eu fui até o mercado e comprei uma dúzia delas. Só que comprei maçãs, eu jurava que era isso que meu amigo tinha recomendado...


Confesso que já tô me acostumando com essa loucura toda. E ando desenvolvendo técnicas ótimas pra não errar mais. Quando anoto um nome no celular, por exemplo, sempre coloco uma referência pra não confundir. Assim: André amigo Eduardo. Mas quem é Eduardo mesmo, meu Deus?!?!

E como não tem jeito, nem remédio, vou levando a vida assim mesmo.

5 de nov. de 2008

Distante das cercas de amor


(Inspirado na música "Tudo vai ficar bem", banda Cof Damu)



Lá no alto daquele monte, querido
Tem uma casa que poderia ter sido nossa
(ainda bem que você não me escolheu)
Porque a casa não quis sequer abrir as portas
Para o nosso caso entrar.

Antes que a fizéssemos ruir
(aquela casa que poderia ter sido nossa)
Tivemos certeza que era ele
(aquele sentimento que a gente nem soube o nome)
Quem deveria partir sem voltar mais.

“Ainda que nas tardes ela possa escutar
(em suas paredes o que ele a fez sofrer)
Não teve medo de deixar assim
O vento entrar
Pela janela de estar”

Tudo vai ficar bem.
Não existe fim.