11 de mar de 2009

Vida real

Ele estava na fila, mas ainda não tinha decidido o que beber.
Aliás, ele não tinha decidido nem entrar na fila, apenas achou menos solitário estar ali entre aquelas pessoas que pareciam tão certas do que faziam.
Pediu uma vodka com energético.
Não, pediu só a vodka mesmo, com gelo, precisava dormir aquela noite. Sentou-se na primeira cadeira que encontrou.


Ele havia pedido demissão há dois dias. Não estava feliz no emprego, não ganhava bem, não via perspectiva alguma de crescimento. Não era suficiente? Para ele sim.
Estava certo da decisão, só não sabia como contar à namorada.
Amava-a mais que tudo, sonhava com os filhos, sonhava com longos e eternos dias de paixão e bons dias.
Então quando enfim criou coragem para contar, antes que ele pudesse abrir a boca, ela terminou com ele. E não quis nem saber o quê ele tinha a dizer. Disse que até gostava dele, mas não o suficiente para imaginar uma vida a seu lado. Isso tudo minutos antes dele chegar àquela fila onde começou essa história.


O copo de vodka estava chegando ao final.
Não, ele não queria se embebedar nem estava mortalmente ferido. Estava dormente, só isso.
Primeiro escolheu perder aquilo não o fazia feliz. Depois escolheram perder aquilo que o fazia feliz. E foi assim que ele perdeu tudo, de uma tacada só.
Pediu mais uma vodka, percebeu que o bar estava ficando vazio.
Estranhou-se. Era comum ficar tonto com qualquer coisa, mas estava extremamente sóbrio e lúcido.
Bebeu a segunda dose quase que num único gole.
E resolveu ir pra casa.

AGORA VOCÊ ESCOLHE O FINAL:

FINAL 1
Assim que saiu do bar resolveu parar para amarrar o cadarço (estava com medo de tropeçar, não queria levar outro tombo, não naquele dia).
Quando levantou, sentiu-se ligeiramente tonto e fraquejou. Foi tentar se apoiar na parede e pronto! Acabou derrubando uma inocente moça que por azar passava ali naquele momento. Azar? Não mesmo.
Ela o acusou de bêbado.
Ele riu, disse que não era apesar de ter bebido duas vodkas.
Ela disse que duas vodkas em plena segunda-feira era coisa de bêbado.
Ele completou e disse que além de bêbado era desempregado e largado.
Ela riu. Achou-o simpático e bem humorado.
Ele viu que ela estava com um disco da Billie Holiday na mão. Achou engraçado ela ainda ter um vinil. Comentou.
Aí os olhos cruzaram-se.
Borboletas no estômago.
Foram tomar um café.
Apaixonaram-se perdidamente.

FINAL 2
Assim que saiu do bar resolveu parar numa banca para comprar um maço de cigarros. Ele não fumava, mas achou divertido tentar aquela noite. Então atravessou a rua.
Quando estava quase chegando ao outro lado, viu uma bonita moça que atravessava com um vinil da Billie Holiday debaixo do braço. Achou tão inusitada aquela cena que ficou ali acompanhando.
Com o descuido, quase foi atropelado.
O carro parou a meio metro da sua perna direita.
O motorista desceu do carro e o acusou de bêbado.
Ele riu, disse que não era apesar de ter bebido duas vodkas.
O motorista disse que duas vodkas em plena segunda-feira era coisa de bêbado.
Ele completou e disse que além de bêbado era desempregado e largado.
O motorista riu. Achou-o simpático e bem humorado. Perguntou com o que ele trabalhava.
Publicidade.
E o motorista contou que era dono de uma das maiores agências de publicidade do país.
Foram tomar um café.
Tornaram-se sócios.

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P.S.: Sei que é tentador, sei que você ficou em dúvida sobre qual final ele merecia, os dois são maravilhosos e românticos, cada um a sua maneira.
Mas a vida é real. E se você quer saber a verdade, por favor, não fique decepcionado, mas nenhum dos dois finais aconteceu a ele naquele dia.
Ele saiu do bar, amarrou o cadarço, atravessou a rua, entrou na banca, comprou um cigarro, foi fumando no caminho pra casa, abriu a porta devagar para não acordar a mãe, entrou, tomou um banho, deitou na cama e dormiu.
Triste?
Ele não.
Ele dormiu feliz por saber exatamente por onde devia começar no dia seguinte.