23 de jun de 2006

Pé Sujo

Porque tenho a impressão de só encontrar com pessoas que não quero ver? É só ter um assunto mal resolvido, uma pendenga qualquer, que pimba! Lá está o objeto do desafeto escondido atrás de uma esquina da vida.

E não adianta esconder-se ou esquivar-se, o sujeito sempre vai vê-lo. Você pode estar ruiva, de óculos escuros, ter empinado um pouco o nariz – e ainda assim ele virá com aquele velho clichê “você não mudou nada!”.

Dia desses encontrei com um deles. Chamarei-o de Pé Sujo, pra proteger sua identidade, ou para proteger a mim mesma, não sei.

Ele era apenas um cara com quem saí umas duas vezes – talvez até mais – e depois de uma noite nem tão boa assim acordei com seus enormes pés sujos bem perto do meu rosto! Como eram nojentos aqueles pés. Vesti-me, saí e nunca mais vi Pé Sujo.

Agora ele estava ali, na minha frente.

- Oi, você não mudou nada – disse

- Oi – respondi e pronto.

Imaginei continuar andando e fazer daquele momento uma lembrança desagradável. Mas Pé Sujo não estava satisfeito. Senti-o olhando nos meus olhos e fazendo a pergunta que eu tanto temia:

- Porque você nunca mais me ligou?

Deus! Porque tinha de ser tão direto?!? Eu só queria tomar um café a dois quarteirões da minha casa e agora estava tendo que me explicar àquele primata. Saí pela culatra:

- Você também não ligou mais – disse. Mas corei quando lembrei de ter visto algumas ligações não atendidas na secretária eletrônica...

- Mas eu liguei sim.

- É que faz tanto tempo – sabia que não era uma resposta, mas arrisquei.

- O que anda fazendo?

- O de sempre, trabalho e nada mais. Desculpa, estou indo tomar um café, tenho que ir – disse firme.

- Posso acompanhar você???

Silêncio total. Alguns muitos segundos depois:

- Bem, vai ser rápido mas... Ok, podemos ir – e fui. Contrariada, mas fui.

No caminho até achei Pé Sujo bem mais agradável. Trabalhava agora numa grande revista, mudara-se para Ipanema (embora não fizesse a mínima idéia de onde ele morava antes!), vestia-se incomparavelmente melhor. Vale até uma descrição do figurino para chegar à parte que mais interessa: vestia lindas calças jeans Levi’s, uma bata branca de corte fino e nos pés uma sandália de couro. E os pés? Deus! Eles eram inacreditavelmente lindos agora! E limpos...

O café virou um almoço, que virou um programa, que terminou na sua casa com outro café.

Depois de tudo feito vi-o mostrar os pés para mim com uma péssima dissimulação e tive vergonha. Será que em algum momento deixei ele perceber algo?

Trocamos telefone, algumas palavras carinhosas de reencontro e voltei para casa com a sensação de que havia me equivocado. Nem só de reencontros desagradáveis vivem as esquinas de uma grande cidade.

Mas estranhamente Pé Sujo não ligou mais.

E alguns dias depois percebi que realmente estava certa.

Pé Sujo já não era mais um desagradável e por isso estava fadado ao desaparecimento.

13 de jun de 2006

Estiagem


"Essa tempestade um dia vai acabar...
Só quero te lembrar de quando a gente andava nas estrelas,
Abra a janela e veja: eu sou o sol, eu sou céu e mar.
Eu sou seu e FIM, e o meu amor é imensidão."

12 de jun de 2006

Fernanda... Em 1989.

Falamos de paixões adolescentes hoje, no almoço.
Falamos mais, falamos de coisas que não foram ditas, por medo ou por pura imaturidade. Falamos ainda de arrependimentos, de culpa, de vontade de ter feito diferente.
E então eu, após o pavio aceso, quero falar de rumos.
...
Era 1989, segunda-série, Miracema, Colégio Ceneciste Nossa Senhora das Graças.
Era a Fernanda, a menina mais linda do colégio, a mais cobiçada da sala, a mais desejada entre mim e meus amiguinhos. Nove anos, eu tinha.
Fernanda era uma boneca: cabelos lisos, pretos, olhos puxados, nariz arrebitado. E eu, menino tolo, completamente apaixonado.
Lembro de tanta coisa: dos estudos no portão da sua casa, sentados no chão, cadernos apoiados em banquinhos. Eu imaginava que ela sentia o mesmo que eu, aquela vontade de ficar perto, de conversar. Mas ela, entendo, morava numa outra dimensão. Era imortal já, pisava nos astros e passava lânguida e ria.
Seu quarto era todo rosa, cortinas de babado, ursinhos de pelúcia. Eu pensava nela dormindo ali naquela cama, era tão difícil imaginá-la fazendo coisas comuns, coisas que eu fazia, que os outros faziam. Ela comia, dormia, ia ao banheiro? Isso eu ainda não sei.
Era uma festinha americana, casa da Bruna. Meninos levavam refrigerante e meninas, salgados.
E a Fernanda ali, entre todos os meninos que a amavam, decidiu dizer que ela, a imortal, amava o Rodolfo. E nessa hora eu percebi não só sua imortalidade como a minha mortalidade.
Foi minha primeira decepção amorosa, confesso.
Mas estranho, no segundo andar da casa, um outro menino, Welber, estava chorando por conta da descoberta. Ele também amava Fernanda, que amava Rodolfo, que provavelmente amava Fernanda. E ponto.
E eu, estranho, senti minha dor ir embora pra poder passar a mão nas costas do Welber. Talvez quisesse dizer: “amigo, ela é uma deusa.” E aí voltamos para aquela velha história de coisas que não foram ditas, imaturidade e etc e tal.
...
Fernanda hoje é deusa completa, de fotos com flores pelo cabelo. Vaga agora pelos astros completamente, numa interação plena.
Fernanda hoje é o astro, e sabe, madura, da força de sua beleza.
Hoje Fernanda, amiga do peito, mora um tanto afastada, talvez nós tenhamos sido empurrados por caminhos diferentes de vida.
Se ela sabe dos amores que despertava naquela época, não sei. Mas acredito que sim.
Se eu poderia, hoje, falar do meu amor pueril? Talvez.
Existem pessoas que lamentam amores não realizados, palavras não ditas.
Eu não.
Ainda que eu seguisse pelos caminhos “naturais” de um homem ou ainda que deusas povoassem meus sonhos e desejos, ainda assim não me arrependeria.
Fernanda é plena.
E eu amei e desamei ao meu tempo, sem traumas.

6 de jun de 2006

Educação. Por Maria Angélica Alves

Esse post vai assim, sem qualquer acréscimo meu, sem qualquer palavra a mais. Aliás, ele fala sozinho, até mesmo aqui, fora do seu contexto.
Obrigado a Angélica, professora do Caps Uerj, pela gentileza de permitir que meu humilde blog compartilhe de tamanha paixão...
"No dia 19 de maio, li uma matéria no jornal "O Globo" que me fez pensar muito em vocês. "Realidade muito além do futebol" era o seu título e "Alunos de escola pública em Weggis descobrem o Brasil", o subtítulo. Um menininho louríssimo, lindo, saudável, de cinco ou seis anos, vestindo a camisa de Ronaldo, corria com uma bandeira do Brasil, durante uma aula de Educação Física, numa escola PÚBLICA da Suíça. As outras fotos mostravam uma ampla e clara sala de aula, com um mobiliário estalando de novo, mapas, telões, cartazes, janelões exibindo paisagens verdejantes, dois professores, cerca de quinze alunos, um luxo!

Imaginem que lá, na Suíça, em Weggis, a cidade onde a nossa brilhante Seleção treina e descansa, se preparando para a Copa, todos os alunos acordam cedo (como vocês), mas passam, diariamente, nove horas na escola. Praticam esportes, aprendem alemão, francês, inglês e italiano e, nesse momento, desenvolvem um projeto especial: conhecer a realidade do Brasil e dos brasileiros.

Nesse projeto, os alunos de Weggis pesquisaram vários temas da nossa cultura: a agricultura, a arte, o carnaval, a fauna e, claro, o futebol. Durante os estudos, ficaram impressionados com o tamanho do nosso país (nem sabiam localizá-lo no mapa!) e se admiraram ao saber que se leva dez horas de avião para ir do Norte ao Sul do Brasil e que só a cidade do Rio de Janeiro tem mais habitantes do que a Suíça inteira!!!! Vocês sabiam? Mas localizar a Suíça no mapa eu tenho certeza que vocês sabem...Conheceram muitas belezas do nosso imenso e fantástico país, como o Pantanal Matogrossense, por exemplo. Experimentaram o nosso café e até sambaram com um professor colombiano, que se divertiu, afirmando: "As meninas até levam jeito, mas os meninos são duros demais!".

Um dos pontos altos do projeto "Semana do Brasil", na Escola Schulhaus Kirchmatt (é assim que ela se chama), foi a projeção do filme "Cidade de Deus". No filme, adolescentes brasileiros vivem nas ruas e convivem com uma violência sem tamanho. Vocês podem não ter visto o filme, mas conhecem bastante essa realidade de tanto ver e ouvir falar, não é? Os adolescentes suíços ficaram “chocados”, impressionados mesmo com algumas cenas, porque mostrava uma realidade muito cruel, bem diferente daquela que eles aprenderam a conhecer nos cartões postais. Olhem só o que uma jovem de quinze anos, a Dora, concluiu, ao final: “Entendi que, no Brasil, a criança pobre vira jogador de futebol ou entra para uma gangue. Essa é a vida real dos brasileiros.” Eles pensavam que no Brasil só existia samba ou futebol. Então desenvolveram com o professor Markus Bregy os temas "Meninos de Rua" e "Criminalidade juvenil". Nessa escola PÚBLICA, há 423 alunos, entre o jardim de infância e o ensino médio. Vocês sabem quantos alunos há no CAp? Mais de 423? Menos? Procurem saber...

Também estávamos preparando um belo projeto para desenvolvermos no CAp durante a Copa. Queríamos estudar com vocês (e ainda queremos!) as culturas dos diferentes países que participarão da Copa. Tivemos que adiar esse projeto e outros também, acho que vocês já sabem o motivo. É isso mesmo. Estamos lutando muito para melhorar a nossa vida lá no CAp.

No CAp que sonhamos para vocês e para nós, professores, as carteiras e cadeiras não estão destruídas pelo tempo ou pelos cupins; o único elevador do nosso prédio de cinco andares funciona; os pátios são arborizados e têm espaço para brincadeiras e prática de esportes; as bibliotecas têm espaço para todos circularem à vontade e estão recheadas de livros,revistas,computadores; as salas de aula são arejadas e oferecem a segurança e o conforto necessários para que as aulas sejam agradáveis e muito, muito valiosas para o crescimento de vocês. Lá, nesse CAp que sonhamos, também não falta professor para ensinar inglês, francês, italiano, espanhol, chinês; os laboratórios são bem equipados; as cantinas e o restaurante servem alimentação saudável e ocupam um espaço adequado; professores não precisam ser substituídos todo ano, podendo participar de concursos e realizar, continuamente, projetos e pesquisas que enriqueçam cada vez mais o trabalho que desenvolvemos com vocês, e os funcionários não precisam ficar correndo de um lado para o outro para poder atender as nossas solicitações. Nesse CAp, teríamos um ônibus para fazer excursões incríveis, não seria o máximo? Ah, tantas coisas simples, necessárias e adoráveis teríamos. A lista é muito longa, vou parar por aqui. Só fico com peninha, muita mesmo, porque esses sonhos não são impossíveis, não precisavam ser. O Brasil não é a Suíça, mas poderia avançar muito, se quem cuida dele tivesse vontade de mudar o que não anda muito bom, vocês não acham?
Não sei se vamos conseguir realizar esse sonho de CAP algum dia, mas não desistiremos nunca, sabem por quê? Porque viver sem sonhar não tem a menor graça. Não mesmo.
Eu acho que o Brasil vence essa Copa fácil, fácil. E vocês? É um time e tanto, Ronaldinho é mesmo um super craque. E o Kaká, então? Nossa, é demais!Mas precisamos mesmo é continuar lutando - e vocês vão ajudar muito nessa tarefa gigantesca -, para fazer o nosso Brasil tão querido vencer todas as dificuldades que já vem enfrentando há muitos, muitos, muitos anos para ser realmente um grande país, não só no mapa, como já é, mas na mente e nos corações de todos nós."

5 de jun de 2006

Variações sobre o mesmo tema/ Final de semana confuso/ Nova ótica


1. Outro dia eu enterrei uma pimenta, que morreu e caiu do galho, na terra do vaso.
Ontem ela já havia brotado, e é agora um lindo broto.
E me pergunto: será que não é isso? Será que a morte não é isso? Será que a gente não "vira" alguma coisa muito melhor?
Então, Letícia, não é isso?


2. Decidir se vou ou não para Europa na verdade é decidir algo muito maior.


3. Amigos antigos que se calam são diretamente proporcionais à novos que participam.

1 de jun de 2006

Asas

Se conseguisse tirar os pés do chão para alçar vôo naquele momento talvez realmente nem precisasse das asas. Mas elas estavam ali, nas minhas costas, e a janela aberta me convidava a batê-las.

Quando ganhava o céu, de vez em quando, sentia náuseas. Mas sabia que não a sensação não passava de uma insegurança de não estar preso a nada, nem a mim. E era isso que me fascinava no vôo, estar livre até de tentar entender o porquê.

Se chovia então era melhor: um pingo sempre pode parecer uma lágrima, e uma lagrima, se minha, era também chuva. Se raios então o fizessem, era luz e se luz fosse a asa, dia. E já nem lembrava das pernas, essas malditas raízes que me fincavam na terra.

Se nublado, soprava as nuvens e desenhava com elas, sem aquarela ou pincel, só as dispondo ao sabor das asas pra ver alguém lá de baixo apontando e vendo elefante onde era gato.

Se manhã acompanhava o sol de mãos dadas e colocava-o no pino do meio dia, mas depois o levava para um mergulho no mar, quando era vez da lua.

Se fosse sol, fazia sombra, mas se eu fosse então a sombra, refresco.

E se cheia fosse a lua, podia fazê-la crescente, ou minguante, dependendo de onde eu fizesse a sombra, mas agora sem o refresco.

Se verão, era brisa; se inverno seco; se outono companheiro; se primavera cor.

Voava por horas, por dias, por anos, embora enquanto no ar não conseguisse entender de tempo. Na verdade entendia só de nunca, mas o nunca parecia muito longe pra entrar nessa história.

Se fosse cidade, voava baixo; se estado, médio; se fosse país, muito alto e tudo o que via eram pontos/pessoas que eram em suma o que a visão torta veria ainda que de perto: apenas pontos,pontos, pontos. Com raízes.

Mas o que mais gostava era do arco-íris. As cores a todo momento mudavam, ou será que meus olhos é que as viam diferentes sempre? Se via-o perto, era muito longe, mas se nem o percebesse poderia estar dentro dele.

De tanta prática já conseguia voar de olhos fechados e ainda assim via muito, porque muito do que enxergava era puro sentimento. Mas se os olhos estivessem então abertos, então era sentimento, e puro.

Voava cada vez mais, descobria cada vez mais, sentia cada vez mais. Cheguei a ponto de ouvir com os olhos, ver com ouvidos, sentir com alma.

Não me importava com a descrença dos outros no meu vôo pois só os que tinham os olhos presos na terra não poderiam ver a beleza do que se esconde atrás do ar. Com o tempo parei de contar minhas aventuras porque quanto mais contava, menos voava.

E como meus pés já não me prendiam mais, passaram e prender minhas mãos também.

Conheci em uma de minhas viagens um homem-pássaro, que como eu, vivia preso numa gaiola mas conseguiu fugir. Mas ele não sobreviveu muito, coitado. Era simples no que via, primário no que sentia e mesmo com asas nunca ia muito

longe.

Mas eu não era nem pássaro, nem avião, nem folha seca, nem ar.

Quando tinha asas era tudo de tanto ser nada.