23 de set de 2009

Primavera


Eu não sei como começou.
Não recordo sequer a primeira vez que te vi.
Só sei que um dia, assim do nada, olhei pra você e aí parecia que todos os meus dias até então tinham sido cinzas. Porque você trouxe um amarelo diferente pros meus olhos e porque seu sorriso me encabula de tão brilhoso que é.
Nosso acordo não é perfeito e nem tem nome. Só tem cor mesmo. Cor, sabor e forma. É real embora ainda não exista de fato.
Você me toca cada vez mais e cada vez mais de perto e mais certeiro. E eu, aos poucos, aprendi a te segurar forte, mas sem apertar porque você já me disse que a sua pele é frágil.
Você e sua pele.
Agora você me toca cada vez mais nos lugares certos porque você desistiu de tentar acertar só nas feridas.

As vezes eu sinto uma vontade quase incontrolável de ir além, de dizer coisas, de falar que é mentira essa distância porque eu sinto sim, eu sinto isso sim e eu quero.
Mas eu tenho medo, não sou forte suficiente pra isso ainda.
Porque eu já sobrevivi a você uma vez e, sinceramente, não estou certo se conseguiria sobreviver novamente.

10 de ago de 2009

We walk



Definitivamente é hora de me apaixonar de novo. Porque eu tenho postergado e tratado todo mundo com uma distância que não é minha. Não adianta mais seguir colecionando esses arranhões quando eu sei que preciso dos machucados profundos. Paixão é um machucado profundo. Já faz um ano que abandonei aquela casa que tanto me cerrou. Agora eu ganhei o mundo e passei a entender que não preciso me testar. Conheço todos os meus limites e estou completamente decido a ultrapassar todos. Paixão é um machucado profundo e sem limites. É que eu nem tenho tentado mais, sabe? Estou fechado em medos e intolerâncias egoístas, e não é herança não, é meu mesmo. Aí perdi uma grande chance. Pura falta de coragem. Mas não vou mais evitar, vou colocar a cara a tapa. Vou me apaixonar agora mesmo, no caminho pra casa, seja lá quem for.
Porque paixão é um machucado profundo, sem limites e com a cara a tapa.

20 de jul de 2009

Presentinho!


Eu tenho uma grande amiga hoje.
Uma amiga que acaba de ganhar esse posto porque perdeu o de grande amor, ela não quis e eu confirmei.
Essa amiga tem tomado um lugar importante na minha vida, no meu dia-a-dia, na minha lista de afetos-antes-desafetos. Lista cada vez maior inclusive. Porque vou me reconhecendo a cada dia pelo outro, pelos outros, tem jeito não, sou assim mesmo.


Ainda não temos muita história pra contar, é verdade. A maior parte das lembranças ainda diz respeito a parte onde havia só um descaso. É que foi bem recentemente que ultrapassamos a linha que separa nossos bairros e nossas intenções.


E por conhecê-la ainda tão pouco é que ando fissurado por descobri-la.
Não por inteiro que é pra não perder a graça, mas pelo menos a ponto de não duvidar.
A tarefa não é fácil. Ela anda meio arredia, meio egoísta, abriu mão de ser ela mesma durante muito tempo e agora não quer aceitar nada que não seja genuinamente seu.
E aí ela reclama quando eu falo fazendo manha, diz sem o menor pudor que eu sou capiau e de quebra ainda afirma categoricamente que sou deslumbrado.
Mas eu não me chateio não. Entendo bem esse momento. Ainda mais no caso dela, tão perfeitinha e matemática, ainda muito apavorada pra considerar variáveis que ela não pode controlar. Aí eu ouço, pego o que há de bom e sigo cultivando esse sentimento tão gostoso.


Talvez eu conheça minha amiga mais do que ela a mim. Talvez eu saiba exatamente o que ela espera de mim e talvez por isso eu faça quase sempre o contrário que é pra mostrar pra ela que o mundo continua o mesmo e que as pessoas não vão ser diferentes só porque ela tá de saco cheio.

Essa minha amiga é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço. É vaidosa também. E adora elogios. Quando eu não os faço por mera constatação ela sempre arruma uma forma de me fazer dizer, ainda que indiretamente.

A verdade é que me sinto bem ao lado dela. Gosto da forma como me confronta, como ri e do jeito meio sapeca de olhar pra mim quando acha graça. Ela sempre acha graça de alguma coisa e eu preciso aprender isso com ela.


Mas o que mais gosto nessa minha nova amiga é sua grandeza. A grandeza que ela mesma não sabe entender, por isso se perde tanto. Ela brilha diferente, guarda um destino tão grande quanto ela, mas não vai saber como ir atrás dele enquanto não parar de perder tempo com inseguranças bobas.

Enquanto isso a gente vai se divertindo, muito.
Hoje mesmo, quando ela chegar aqui e eu disser que tem um texto pra ela no blog (e que o texto não é antigo!) ela vai ficar curiosa e vai rir. Mas não vai ficar muito curiosa não, nem vai se empolgar muito porque ela não me dá muita bola (mas vai se mijar quando ler a parte do capiau!).
Aí eu vou dizer que hoje é dia do amigo e por isso resolvi falar dela no blog. Ai ela vai gargalhar, dizer que nem sabia que existia um dia do amigo e provavelmente vai fazer um "argh!" pra mim porque acha isso meloso demais.
Depois vamos trocar nossos apelidos carinhosos - suína e eqüino - e vamos mudar de assunto.

As outras coisas já são sérias demais por isso a gente só quer saber de rir.

19 de jul de 2009

De quando eu não consegui chegar até você...

São seis horas da manhã e meu celular toca.
É um manhã de sábado chuvosa, ainda está escuro. Dentro e fora de mim.
Há três meses espero por este momento.
É você quem me liga.

Então você imita a chuva e desagua.
Você diz que me ama; diz que não sabe como sobreviveu esse tempo todo sem mim; diz que sente falta dos meus olhos em você; diz que ainda estremece quando lembra do calor que as pontas dos meus dedos têm.
E vai dizendo tudo, todo o texto que eu ensaiei para você. Todas as letras e todas as escalas, os meandros, os subtextos. Você acerta até as pausas, os silêncios todos, as pontuações.
Você passa exatos 21 minutos se desculpando e me pedindo pra voltar.
Voltar?
Não.
Você me pede para eu ir.
Para ir até você pela primeira vez.

A chuva pára no 22° minuto.
Esqueço da minha parte do texto.
Aí eu digo para você que só preciso de 10 minutos para chegar até a sua casa.
Você me diz que é muito.
Você diz que vai me encontrar na metade do caminho.
Cinco minutos é o máximo que você deseja esperar por mim.
O dia já brilha lá fora. Fora e dentro de mim.
Não há mais sinal daquela chuva.

Aí eu desligo o telefone, lavo o rosto, coloco um boné e saio.
O elevador leva uma eternidade para chegar ao térreo. Estou com o coração na boca.
Eu saio quase correndo.
Vou passando as esquinas como quem passa as páginas de um livro. Vou deixando os caminhos e as histórias para trás. Estou indo atrás das novas páginas em branco.
Mas aí, pouco antes do Largo do Machado, meu coração pára. Eu caio.
E a última imagem que vejo é você. Quase perto, quase longe. Como sempre esteve.
Aí eu morro.

É, mais uma vez eu não vou ser seu.
Dessa vez definitivamente.


(Rio de Janeiro, Fevereiro/2009
Mais um fragmento da série "as coisas que escrevi e que não podiam ser ditas". Me sinto aliviado em dizê-las agora.)

4 de jul de 2009

Eu, Clarice e o Menino Mudo dos Cachos

Porque eu escrevo se você não vai ler?
Porque sigo vomitando esses escritos tolos e pobres de significado se não sou mais que uma sequência alfa-numérica de quatro dígitos apenas?
Sou uma combinação numérica e um nome que nem é meu.

Começo assumindo uma fraqueza, a primeira delas: tenho medo escrever. Um medo absurdo de escrever sobre você.
Medo de mexer com aquelas coisas engavetadas, aquelas coisas que mínguam na superfície e mergulham suas raízes grossas aonde eu mesmo não sei chegar.
E muito menos sair.

Mas eu escrevo assim mesmo por que escrevo pra responder alguma coisa que pergunta.
E escrever pra você é mais ainda. É procurar sentir até a última gota do que permanece vago e assustador.
É como se o papel fizesse de conta que é você e então há um diálogo.
E o papel, como você, mudo e duro, aceita os escritos todos e diferente de você vai oferecendo a própria pele pra servir de tela, aí a coisa toda vêm à tona, machuca primeiro, rasga a terra e brota e floresce.

Não, escrever não vai alterar nada.
Mas porque você insiste em achar que eu quero alterar alguma coisa? Você não precisa dizer mais nada.
Você já fez as perguntas.
Eu é que estive atrás das respostas. Escrevo porque preciso desabrochar de uma forma ou de outra.

Você.
Engraçado como essa palavra cabe em tantas outras e triste como você a cerrou em significados.
Você pra mim é essa dor pontiaguda de te olhar todos os dias e não ver nada.
Você pra mim é só um não saber conjugar qualquer verbo porque você mora no presente.
E pra não desaguar é que desabrocho.
E pra não errar o tempo verbal é que escrevo.
Fui, quis, sofri, sonhei. Eu sou passado.
A escrita é o futuro. E o futuro não comporta nós dois, nós três, você.

E nesse mundo que crio quando escrevo, nesse mundo você é outro do que é agora. Nesse mundo você é o que deveria, o que verdadeiramente deseja, você é sem pedir licença ou desculpa a quem se ofende. Nesse mundo você é o menino dos cabelos cacheados, soltos e rebeldes, que sorri alto e que não emudece mesmo quando entristece.
Nesse mundo aqui você é livre, você pode voar e pode desprender essas suas asas, cortar essas raízes e criar uma existência que é só sua.
Porque você é grande, mas não entendeu minhas perguntas.
Está buscando as respostas, mas nem sabe as perguntas!
Então eu te digo: não há respostas.
Só há perguntas.

Quer saber?
Vamos arriscar tudo?
Quem é você sem o outro?



(Esse texto foi escrito em Dezembro/2008 e agora pode ser postado. Ele é um recorte de impressões minhas e trechos da Clarice Lispector. Hoje, julho/2009, o menino não é mais mudo, mas ainda não tem cara!)



10 de jun de 2009

Velho bar

Não, eu não tenho a menor pretensão de ser meu nome essa borboleta a te visitar durante a noite assobiando.

Desejo só um modesto lugar na sua velha casa
não precisa ser nem cadeira cativa
Mas que seja suficientemente forte
Para cessar o seu choro.

Aí quem sabe nós
(eu e você)
possamos re-conhecer as agruras dos nossos corações
para em seguida bebê-las,
uma a uma
gole a gole
(ao seu tempo)
aqui no meu bar?

6 de abr de 2009

O dia em que fui mais feliz (ou "Autoajuda 2")


Eu me lembro exatamente o dia mais triste da minha vida.
Foi um só, foi arrebatador.

Mas o dia mais feliz da vida, esse eu juro que não sei.
E não é porque eu não tenha tido. É exatamente o contrário.
Eu tive vários e tantos que não sei precisar qual deles foi o mais intenso, o mais incrível.
O melhor é que sigo colecionando esses dias, pelo menos uma vez ao mês eu tenho um dia mais feliz da minha vida.

De tanto ser assim eu passei a reconhecer os dias mais felizes das pessoas à minha volta.
A moça que senta aqui ao meu lado no trabalho, por exemplo.
Hoje é o dia mais feliz da vida dela.
Ela cortou o cabelo e todo mundo notou. Todo mundo elogiou. Em agradecimento ela sorriu de um jeito tão colorido que eu entendi: pronto, é o dia mais feliz da vida dela. Pelo menos o desse mês. Amanhã ela lembra dos problemas todos, porque sim, ela tem muitos. Hoje não.
Parece pouco, né? Mas não é não. É muito! Pra ela é muito.
Pra ela e pra todo mundo que entende que felicidade é assim mesmo. Um momento, uma fração, rapidinha, um segundinho. Aí é com você: ou você guarda ou desperdiça. Mas se guarda, aí é o tal do dia feliz.

E existem outras maneiras de ter dias felizes também.
Aqui no Rio tem um monte de lugar que já tem dias felizes prontinhos, é só chegar e pegar.
Ontem mesmo eu fui pegar o meu ali na Lagoa. Um belo domingo de sol, um passeio de bicicleta ao lado de quem me faz feliz e bingo! O mês nem bem começou e já tive o dia mais feliz da minha vida!

Reparou?
O dia mais triste da minha vida é um só.
O dia mais feliz não dá nem pra ser escrito no singular, não soa bem.
Porque tristeza a gente quantifica e felicidade a gente qualifica.
Aí é batata.

11 de mar de 2009

Vida real

Ele estava na fila, mas ainda não tinha decidido o que beber.
Aliás, ele não tinha decidido nem entrar na fila, apenas achou menos solitário estar ali entre aquelas pessoas que pareciam tão certas do que faziam.
Pediu uma vodka com energético.
Não, pediu só a vodka mesmo, com gelo, precisava dormir aquela noite. Sentou-se na primeira cadeira que encontrou.


Ele havia pedido demissão há dois dias. Não estava feliz no emprego, não ganhava bem, não via perspectiva alguma de crescimento. Não era suficiente? Para ele sim.
Estava certo da decisão, só não sabia como contar à namorada.
Amava-a mais que tudo, sonhava com os filhos, sonhava com longos e eternos dias de paixão e bons dias.
Então quando enfim criou coragem para contar, antes que ele pudesse abrir a boca, ela terminou com ele. E não quis nem saber o quê ele tinha a dizer. Disse que até gostava dele, mas não o suficiente para imaginar uma vida a seu lado. Isso tudo minutos antes dele chegar àquela fila onde começou essa história.


O copo de vodka estava chegando ao final.
Não, ele não queria se embebedar nem estava mortalmente ferido. Estava dormente, só isso.
Primeiro escolheu perder aquilo não o fazia feliz. Depois escolheram perder aquilo que o fazia feliz. E foi assim que ele perdeu tudo, de uma tacada só.
Pediu mais uma vodka, percebeu que o bar estava ficando vazio.
Estranhou-se. Era comum ficar tonto com qualquer coisa, mas estava extremamente sóbrio e lúcido.
Bebeu a segunda dose quase que num único gole.
E resolveu ir pra casa.

AGORA VOCÊ ESCOLHE O FINAL:

FINAL 1
Assim que saiu do bar resolveu parar para amarrar o cadarço (estava com medo de tropeçar, não queria levar outro tombo, não naquele dia).
Quando levantou, sentiu-se ligeiramente tonto e fraquejou. Foi tentar se apoiar na parede e pronto! Acabou derrubando uma inocente moça que por azar passava ali naquele momento. Azar? Não mesmo.
Ela o acusou de bêbado.
Ele riu, disse que não era apesar de ter bebido duas vodkas.
Ela disse que duas vodkas em plena segunda-feira era coisa de bêbado.
Ele completou e disse que além de bêbado era desempregado e largado.
Ela riu. Achou-o simpático e bem humorado.
Ele viu que ela estava com um disco da Billie Holiday na mão. Achou engraçado ela ainda ter um vinil. Comentou.
Aí os olhos cruzaram-se.
Borboletas no estômago.
Foram tomar um café.
Apaixonaram-se perdidamente.

FINAL 2
Assim que saiu do bar resolveu parar numa banca para comprar um maço de cigarros. Ele não fumava, mas achou divertido tentar aquela noite. Então atravessou a rua.
Quando estava quase chegando ao outro lado, viu uma bonita moça que atravessava com um vinil da Billie Holiday debaixo do braço. Achou tão inusitada aquela cena que ficou ali acompanhando.
Com o descuido, quase foi atropelado.
O carro parou a meio metro da sua perna direita.
O motorista desceu do carro e o acusou de bêbado.
Ele riu, disse que não era apesar de ter bebido duas vodkas.
O motorista disse que duas vodkas em plena segunda-feira era coisa de bêbado.
Ele completou e disse que além de bêbado era desempregado e largado.
O motorista riu. Achou-o simpático e bem humorado. Perguntou com o que ele trabalhava.
Publicidade.
E o motorista contou que era dono de uma das maiores agências de publicidade do país.
Foram tomar um café.
Tornaram-se sócios.

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P.S.: Sei que é tentador, sei que você ficou em dúvida sobre qual final ele merecia, os dois são maravilhosos e românticos, cada um a sua maneira.
Mas a vida é real. E se você quer saber a verdade, por favor, não fique decepcionado, mas nenhum dos dois finais aconteceu a ele naquele dia.
Ele saiu do bar, amarrou o cadarço, atravessou a rua, entrou na banca, comprou um cigarro, foi fumando no caminho pra casa, abriu a porta devagar para não acordar a mãe, entrou, tomou um banho, deitou na cama e dormiu.
Triste?
Ele não.
Ele dormiu feliz por saber exatamente por onde devia começar no dia seguinte.

26 de fev de 2009

Ô abre alas que eu quero passar...

A gente brincou sem máscara nesse carnaval.
A gente não ouvia samba quando se conheceu e é bem verdade que eu esqueci seu nome.
Aí você me embolou nos seus braços e eu não lembro se foi antes ou depois que me dei conta do quanto seus olhos eram calmos.
Eram cinco da manhã? Talvez mais?
Não sei mais, só sei que o tempo se adiantou e chegamos na primavera sem sequer passar pelo outono.
Bosques de flores brotavam no caminho que fizemos na volta, eu e você, que não decidimos nada, só seguimos.
Talvez aquela fosse uma tentativa de prolongar a noite, que já era dia. Uma tentativa de nunca ser amanhã, de ser pra sempre hoje. Acho que pensamos que pudesse ser só mais um amor de carnaval, efêmero. Mas não, era primavera já.
Você entendeu, eu também.

Agora você brinda-me com seus números, com essa serenidade tão feroz.
Você é um oásis no meio do seu próprio deserto.
E quando você me abriu as portas desse oásis eu bebi da sua água, da sua água fresca, ouvi suas histórias, vi suas marcas, chorei e sorri a sua história e então embolei você nos meus braços porque já eram quase sete horas.
Aí eu decorei seu sorriso e o toque que meus dedos experimentaram na sua pele.
Aí eu apertei o seu braço e tomei seu sorriso, mas te deixei o meu.
Agora tem um pouco de você em mim.

Eu sei que depois dessa primavera vem um verão.
Sempre tem verão depois da primavera.
Mas enquanto houver flores nesse caminho e auroras em seus olhos, meu querido, então não há de se temer o calor nem as tempestades.

11 de fev de 2009

Ela e Ele (reedicão!)



Ela

Bato a porta do táxi com força e aperto o botão da portaria. Ouço passos na calçada e tenho medo, mas logo vem o clique do portão abrindo e entro depressa. Digo boa noite ao porteiro quase mecanicamente. Já é tarde e só penso em estar com ele.

Quando o elevador fecha a porta vejo que já é meia-noite.


Ele

O ponteiro dos segundos vai passando e ouço os barulhos soando numa contagem regressiva. É silêncio profundo. É escuro também, e profundo, não vejo absolutamente nada.

Escuto o estalo que escapa dos ponteiros do relógio quando eles se juntam, à meia-noite.

Pontualmente surge o barulho do elevador.

Ela está subindo.


Ela

Penso nele novamente e o elevador pára. A porta se abre e sinto o coração bater forte. Ando em direção à porta ansiosa.


Ele

O elevador pára e as portas se abrem. Passo a passo ela vem chegando e pelo barulho agudo que seus pés causam percebo que ela usa suas sandálias de salto alto pretas que deixam seus pés magníficos. Seus passos são descompassados como se tivessem pressa.


Ela

Abro minha bolsa e procuro minhas chaves: porque será que nunca sei onde elas estão? Quase levo a mão à campainha, mas acabo achando a chave bem lá no fundo. Imagino que ele já saiba que estou à porta.


Ele

Ela pára um instante e meu peito se enche. Ruídos dela mexendo na bolsa: por que será que ela nunca sabe onde está sua chave? Por um momento já espero a campainha tocar, mas ela vai abrindo a porta devagar e silenciosamente, imaginando que já durmo.


Ela

Lá dentro há um silêncio profundo, como sempre.

Jogo minha bolsa pelo chão, estou realmente cansada hoje. Vou a geladeira, faço bastante barulho pra ele perceber que cheguei. Mexo em qualquer coisa, bebo água.

Depois de um breve silêncio, abro meu zíper devagar e sei que agora ele deve estar sorrindo porque adora esse momento.


Ele

Ouço sua bolsa cair pelo chão da sala seguido de um longo suspiro de cansaço. Abre a geladeira, mexe em algo, pega um copo e bebe alguma coisa em grandes goles.

Barulho de zíper abrindo.

Sorrio.


Ela

Vou andando cambaleante para o banheiro pensando numa ducha bem quente. Entro, tiro a roupa, mas não fecho a porta pensando em ser surpreendida. Deixo a água cair, me esfrego, tudo num ritmo bem constante pra que ele me perceba. Mas ele não aparece, então acabo logo e fecho o chuveiro. Ao mesmo tempo ouço ele virar-se na cama.


Ele

Seus passos agora são descompassados de cansaço e ela vai se arrastando pelo corredor até o banheiro, mas não fecha a porta. Vai tomar um banho rápido, eu sei. Chuveiro, água caindo, pele sendo massageada. Tudo é quase musical. Eu fecho os olhos já sabendo onde tudo isso vai dar. Mas ela ainda nem me procurou e por isso sou eu quem suspira agora. Eu me viro na cama e ela range. Ao mesmo tempo ela fecha o chuveiro, em uníssono.


Ela

Enxugo-me, pego a escova e fico penteando os cabelos por alguns segundos. Depois passo um hidratante no rosto e como não faço barulho, me divirto percebendo que ele deve estar pensando o que faço nesse momento porque há um silêncio tenso.


Ele

Ela enxuga-se, penteia o cabelo. Provavelmente por alguns segundos está passando algum creme no rosto, porque ela sempre faz isso e porque há um silêncio tenso.


Ela

Enrolo-me na toalha, apago a luz e vou andando para o quarto.

Sinto meu peito ofegar.

Ao entrar o vejo de olhos fechados, mas sei que está acordado. Jogo a toalha no chão e espero por dois segundos que ele abra os olhos. Mas ele não o faz.

Vou ao guarda-roupa, abro, pego um pijama vermelho de seda, visto e sento na cama, ao seu lado. Ele continua imóvel, mas no seu silêncio já ouço sua respiração ofegante. Pego o controle da TV e fico trocando de canal, acho que esse é o maior sinal de que estou pronta.

Desisto.

Desligo a TV.


Ele

O interruptor elétrico clica, a luz apaga, ela vem vindo para o quarto.

Congelo.

Entra, joga a toalha no chão, abre o guarda-roupa e veste algo.

Eu continuo de olhos fechados.

Senta na cama, dá mais uma penteada no cabelo. Pega o controle, passa os canais e desiste em seguida.

Desliga a TV.

Ela está pronta.


Ela

Então me deito devagar. Pego meu travesseiro, bato, viro, amasso pra que fique do jeito que eu gosto e pra que ele entenda que não estou tão cansada assim.

Finjo perder o equilíbrio e esbarro nele, que quase fala algo. Mas desiste, nosso jogo é assim, não há como mudar.


Ele

Então se deita. Ajeita o travesseiro, bate, vira, amassa, talvez já ensaiando pra mais tarde. Insinua-se pra cima de mim fingindo perder o equilíbrio.


Ela

Apago a luminária, chego pra bem perto dele, sinto seu cheiro e faço um carinho em seus cabelos. Ele se entrega. Colo a boca no seu ouvido e falo um monte de coisas sem nexo, de amor, de desejo, e ele sorri. Não abre os olhos, mas arrepia.

A cama range de novo e agora num ritmo constante.


Ele

Ela apaga a luminária. Com a mão ensaia um carinho tímido no meu cabelo. Respira fundo e sussurra meia dúzia de palavras sem sentido no meu ouvido, que arrepia primeiro, pra depois todo o corpo.

A cama range de novo e agora num ritmo constante.


Ela

É assim quase sempre.

Toda vez que chego conforto-me no silêncio dele enquanto eu, barulho a barulho, vou me entregando.


Ele

É assim todo dia, ou quase todos.

Reconheço todos os seus sons e devolvo o meu silêncio, por que assim posso senti-la por completo. A cada dia decoro essa cena pra que tudo seja perfeito sempre, e é.


Ela

Porque o amo com meus ruídos e no seu silêncio.


Ele

Porque a amo no meu silêncio e com seus ruídos.




2 de fev de 2009

Monólogo para um ator decadente

Fala 1/ Personagem 1


- Foi impressão minha ou você fez que sim com a cabeça entre a quarta e a quinta taça de vinho? Tá certo, o vinho é vagabundo, vai ver você já está ficando bêbado, sabe como é, dá uma tremedeira mesmo. Mais alguns 20 anos e talvez comece a entender um pouquinho de você.
Nossa! Você tá tão quieto hoje, fica aí com esse olhar vazio. Tá entediado? Pois é, eu falo demais mesmo.
Também, esse macarrão ta horrível né? Uma massaroca esquisita! Ai, será que você tá entalado? Quer que eu bata aí na suas costas?
Na verdade eu não entendi muito bem aquele seu “obrigado” da nossa última conversa. Você chegou a usar o presente? Funcionou? É que eu já tinha comprado antes de você decidir ir embora, aí sabe como é, resolvi deixar lá na sua mesa. Sabe o que é estranho? Aquelas últimas músicas que você me deu sumiram todas. E antes que você me pergunte eu não apaguei não, pelo menos não por querer. Você sabe que eu vivo brigando com o computador. Tentei até baixar algumas delas de novo, mas cara, não acho em lugar nenhum. Não agüento mais esse macarrão, chega.
Será que a gente pede mais um vinho? To ficando meio bêbado já. Tô achando que eu peguei meio pesado naquele último email que tem mandei, né? Você tá com uma cara péssima, tá chateado, né? Mas tenta entender, porra, fiquei muito chateado com a sua atitude, coisa feia mesmo.
Ah! Te contei aquela piada da loira usando o computador? Ih! Que foi? Não tá afim né? Já entendi, foi mal.
Era pra você sim o último texto do blog, a propósito. Você reconheceu, né? Sabe que ando em pânico com essa coisa do blog? Outro dia uma garota do trabalho disse que leu umas paradas, tenso isso né? Fiquei lendo e relendo tudo pra ver se tinha erro de português. Bad trip total...
Você tá mais forte né? Tá pegando pesado na academia? Te falei que voltei a malhar né? Quase trinta já, tá na hora de tomar vergonha na cara. Te falei, né? Porra, você não vai falar nada mesmo?
Não sei pra quê veio então...


Fim do primeiro ato.
(E, de fato, fim de tudo – o personagem 2 retira-se, mais mudo que nunca. É o fim da peça também.)

19 de jan de 2009

No verão, quem mora perto da praia tem mais amigos.


Eu não gosto muito de verão não.
Por muitas vezes acho o calor que faz aqui no Rio uma coisa perto do insuportável. É um calor que só aceita como adjetivo "senegalês". Calor senegalês, é isso.
Mas eu sei que sou uma exceção porque 99% dos cariocas vive só pra esperar o verão.
Eu senti isso na pele quando tive que esperar 20 minutos pra correr na esteira da academia porque não cabia mais ninguém. "Tá todo mundo querendo fritar na praia", me explicou o treinador.

Eu sei é que a felicidade é tanta que por vezes até contagia.
Ontem mesmo, com aquele calor todo, resolvemos dar uma volta ali pelo Aropoador e Ipanema. Já passava das oito da noite, mas muita gente ainda estava na areia, sungas e biquinis, muito papo, muita diversão.
E o mais engraçado é que os grupos são sempre grandes, porque carioca que é carioca aproveita a praia em bando.

Passei perto de um grupo de mais ou menos 10 pessoas, e ouvi alguém falando ao celular: "Encontra com a gente ali na casa da Bruna, na esquina da Prudente com a Vinícius. A galera tá indo toda pra lá."
Fiquei pensando na Bruna e em como o verão levava os amigos pra casa dela.
Provavelmente a Bruna mora sozinha, ou divide o apartamento com mais amigos. Mas nos dias de praia ninguém se importa com a casa cheia de areia, com o aperto do banheiro ou com as toalhas todas molhadas.
No verão, todos os amigos da Bruna querem é aproveitar o sol e o mar.
E com a Bruna, de preferência.