20 de fev de 2008

Outras palavras, novas fotos.

Crédito da foto: D DI Arte
Disponível em: http://olhares.aeiou.pt/plastic_wind/foto1702566.html



sensorial


obturação, é da amarela que eu ponho.
pimenta e cravo,
mastigo à boca nua e me regalo.
amor, tem que falar meu bem,
me dar caixa de música de presente,
conhecer vários tons pra uma palavra .
espírito, se for de deus, eu adoro,
se for de homem, eu testo
com meus seis instrumentos.
fico gostando ou perdôo.
procuro sol, porque sou bicho de corpo.
sombra terei depois, a mais fria.

Adélia Prado





10 de fev de 2008

No ônibus


Encontrei aquela loira de novo hoje no ônibus. Era a sexta vez naquela semana, o vigésimo dia naquele mês.
Tinha um lugar vago bem do lado dela, meu Deus! Era o meu dia, pensei. Sentei.
Uma boca linda, vinte e poucos anos, acho. Cabelinho lisinho, perfume doce, uma coisa.
Vinte minutos era o tempo entre minha casa e o trabalho e era tudo que eu tinha pra poder sair dali ao menos com o telefone dela.

“Oi, vamos sair hoje” me pareceu direto demais. Desisti.

“Oi, nossa! É a sexta vez que te vejo essa semana”, psicopata total.

“Que boquinha linda”, garanhão.

“Oi, qual o seu nome”, tá certo, comum demais, mas vale.


- Oi, qual o seu nome?, eu disse.
- Vanessa.

E ponto, ela não disse mais nada, não perguntou o meu, não sorriu, só respondeu, virou a cabeça pro lado, abriu a janela, conferiu a hora no celular e mais nada.
Pensa, cabecinha, pensa! Eu fiquei ali, dez segundos, pensando na coisa mais original, engraçada, arrebatedora, comovente e espirituosa que eu pudesse dizer. Nada.

Então ela me olhou, de cima a baixo, soltou uma respiração mais forte, daquela que faz você ficar ainda mais na dúvida. Podia ser: “nossa, que babaca”, ou “nossa, hoje é meu dia de sorte”, 50% de chance, ganha ou perde, pega ou larga.
Eu mesmo resolvi conferir: o meu zíper fechado, ainda bem. Barriguinha no lugar, roupa limpa, nenhum respingado, café, pasta de dente ou sei lá o quê mais, mancha nenhuma.

Será que ela era uma daquelas excêntricas milionárias que gostavam de andar de ônibus para se sentirem vivas? Daquelas que andam com o cachorrinho poodle dentro da bolsa, dão filé mignon pra eles no almoço e carne de pescoço pra qualquer outro macho?
Olhei bem, a bolsa era pequena, estava fechada, nenhum cachorro à vista.
Será uma daquelas modelos, lindas e bem pagas, passaporte com carimbos do mundo inteiro, milhões na conta, muitos nomes da agenda? Não, a perna era grossa demais pra isso e tinha uma pequena espinha na bochecha direita dela. Modelos são magricelas e têm pele de boneca, eu acho.
Podia ser casada com um daqueles saradões de academia, barriga tanquinho, tatuagem tribal, carro envenenado... Sem aliança.
Será que ela me achou um pobretão só porque eu estava andando de ônibus? Vou balançar a chave do carrro. Pára com isso, tiozinho. Deixar cair a carteira com dinheiro? Não, não, absolutamente não.

Por que diabos aquela mulher não me correspondia? Parecia uma esfinge me olhando, “decifra-me ou eu te devoro”, e eu era o prato do dia.
A cena mais patética que qualquer filme poderia apresentar, essa era a situação: um segundo de “qual é o seu nome” versus quinze minutos de cara de otário. Dez a zero pra mocinha.
Mas ela, então, despretenciosamente saca um espelhinho da bolsa, passa mais batom vermelho na boca, ajeita o cabelo, guarda tudo na bolsa, levanta e pede pro motorista parar no próximo ponto.
Vanessa! Linda, calça jeans apertada, carinha de menina, atitude de mulher.

O ônibus pára, ela caminha como quem não tem pressa, desce as escadas fazendo barulho, chega à rua.

E quando desce, Vanessa olha pra mim.

Lá de fora Vanessa olha pra mim, Vanessa sorri.

Sorrio de volta, chego perto da janela.

Vanessa aproxima-se.
- E o seu nome? Você não disse – Vanessa diz sorrindo.
- Fábio.

Mas o ônibus segue.

É sexta-feira Vanessa, é sexta-feira.

(na segunda pergunto se você quer casar comigo, juro que pergunto.)