19 de jun de 2007

1 de jun de 2007

"Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio
Como zune um novo sedã
(...)
Tempo amigo, seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final." (Pato Fu)


Essa semana fui metralhado pelo tempo. Ou pelas convenções e especulações que fazemos a seu respeito:
1. esqueci o guarda-chuva, lembrei no portão de casa, ao sair. Mas me pareceu ter passado tanto tempo entre esquecer e lembrar que deu preguiça de volta e pegar.
Choveu muito naquele dia.
2. seis meses se passaram depois que ela se foi. A dor ainda é tão forte que conto nos dedos os dias, como se fosse semana passada. Dez dedos, cinco em cada mão.
3. Santo Agostinho se pronunciou: "Se não me perguntam o que é tempo, eu sei. Mas, se pergutam o que é o tempo, eu não sei." A aluno detestou, quer terminar o curso com dignidade, seu tempo, curto.
4. um anti-idade aliviou três grandes rugas. Ganhei alguns anos.

Acho que é assim mesmo.



Obviamente!

(Foto: Antonio Duarte, site http://olhares.aeiou.pt/foto170982.html)


E quem é que consegue não escrever sobre coisas óbvias?

Quem é que consegue ligar o computador ou abrir o diário, tanto faz, e começar com uma idéia nova, absolutamente original, moderna, cheia de personalidade e sem nenhuma referência? Ninguém.

Por que as coisas todas já estão escritas. Algumas nas linhas, outras tantas nas entrelinhas.
Amor, dor, saudade, o filho perdido, a mão abusada, o aperto no peito, a falta de dinheiro, a pobreza, tão falada pobreza.

Muitos escritores numa época em que pouco há de ser dito, porque muito ainda não se sabe, não a ponto de virar poesia, conto, crônica, ensaio. E o que ainda não se sabe acaba ficando pra depois porque não se pode perder tempo achando, supondo, arriscando. O mundo é veloz, amigo, muito mais do que supunha aquela velha vã filosofia.

Pra recado, torpedo; pra pagamento débito automático; pro banco, Internet; para o restaurante, entrega a domicilio em 45 minutos ou o seu dinheiro de volta; para o macarrão, miojo; para a lasanha, congelada da sadia; para a foto, digital; para mostrar aos amigos, email; para marcar encontro, email; para pedir desculpas, email.
Os escritores, estes hoje em dia têm blogs.
Os músicos lançam novas versões de músicas pela Internet.

Tudo óbvio, rápido. Tudo acaba antes de começar, e se consegue começar, começa querendo acabar. Tudo pode ser dito com no máximo cinco palavras, “vai procurar isso no google” é a maior frase que conheço.

E porque então eu, mero desbravador metropolitano, deveria ter a pretensão de querer ter um escrito, um único que fosse, absolutamente original? Absolutamente indispensável? Absurdamente veloz?

Nada mais óbvio que escrever sobre óbvio.
Nada mais devagar e ultrapassado que escrever sobre escrever.
Eu mesmo, pra revisar este texto, mantenho apenas duas linhas:
“E quem é que consegue não escrever sobre coisas óbvias?
Nada mais óbvio que escrever sobre o óbvio.”


E pronto.