10 de jul de 2006

Melancia...


Melancia

Gostinho de melancia...

E por conseguir a definição perfeita para o beijo dele, eu merecia mais um.

Depois, no silêncio, eu sorria secretamente, mas ele dizia que sempre sabia quando eu estava rindo por dentro, enquanto beijava-me novamente com desejo maior que o habitual. Talvez por entender tudo sem que ao menos eu dissesse uma só palavra.

Melancia!

A sensação era de que eu havia descoberto o que faltava para que aquele romance de verão tomasse força. É fato que aquele gosto que ficava na minha boca por diversas noites me fez perder o sono. Pela falta de definição, eu imagino.

Mas agora era diferente, tudo era diferente. Ele parecia mais doce, mais amável, e me pergunto se não fui eu quem ficou assim.

A partir dali tudo começou a funcionar. Eu queria mais e mais beijos sempre. Aquele gosto forte já entrava em mim refrescando minha boca e esquentando todo meu resto. Era melancia...

Nos conhecemos na praia: ele de sunga, eu de bobeira. Veio a mim perguntando se queria beber uma cerveja, eu disse não. Perguntou meu nome, eu disse Vera, ele, Paulo. Sentou ali mesmo na areia com jeitão de surfista zona sul. Eu sorri quando ele insistiu na cerveja, mas aceitei. Reclamou do sol quente, da bebida também quente, da água fria. E eu implicante.

Deu-me seu telefone e hotel e eu, displicente, joguei em cima da bolsa. Pediu que eu ligasse e saiu. Sunga vermelha, eu totalmente vermelha, ele nem aí.

Liguei. Morava no Rio de Janeiro, eu em São Paulo. Ponte aérea, ele disse. Medo de avião, eu retruquei. Búzios - o ponto em comum. Eu nem sempre, ele todo fim de semana. Ele surfe, malhação, moda e eu clube, aeróbica e estilo. Eternamente rivalidades cariocas e paulistas.

Adversidades a parte, quis saber a hora de me pegar sem antes perguntar se eu queria vê-lo Mas eu queria.

As nove chegou com perfume importado. Eu tinha a boca seca. Deu-me a mão enquanto eu dei-lhe um sorriso. Abriu a porta do carro pra mim e quando entrou beijou-me e deixou aquele gosto em mim pra que eu ficasse me consumindo até descobrir o sabor. Mas não sentia mais sede embora meu calor tivesse aumentado consideravelmente.

Restaurante japonês, saquê, pileque.

Beijos e beijos. Eu enlouquecida com o gosto indecifrável. Num ímpeto quis soprar o garçom pra ele poder sentir o cheiro e me ajudar, mas logo atribuí essa idéia insana ao excesso de saquê. Voltei à mesa, ele pagou a conta.

Não me perguntou onde, mas seguiu firme. Seu corpo já sinalizava; o meu escandalizava. Um balé surdo movido pelo gosto da sua boca. Alguns minutos sem os beijos, eu novamente com a boca seca.

Praia. Ele parou o carro. Desceu, apontou as estrelas. Eu nada vi além da boca dele chegando perto da minha. Foi aí que senti. Melancia...

E aquilo foi se tornando mais forte, mais fresco, mais claro.

...

Onze anos depois ainda sinto esse gosto nele, embora os beijos já não sejam tão freqüentes.

Onze anos depois ele não sabe desse gosto enquanto eu conheço cada gota.

Ele ainda abre a porta do carro, mas eu agora moro no Rio de Janeiro. Nós ainda bebemos saquê, ele me leva à praia de noite mas agora já consigo ver as estrelas.

E há onze anos a cada beijo sinto como se fosse verão, como se fosse Búzios, como se eu fosse única.

Um comentário:

Anônimo disse...

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