12 de jun de 2006

Fernanda... Em 1989.

Falamos de paixões adolescentes hoje, no almoço.
Falamos mais, falamos de coisas que não foram ditas, por medo ou por pura imaturidade. Falamos ainda de arrependimentos, de culpa, de vontade de ter feito diferente.
E então eu, após o pavio aceso, quero falar de rumos.
...
Era 1989, segunda-série, Miracema, Colégio Ceneciste Nossa Senhora das Graças.
Era a Fernanda, a menina mais linda do colégio, a mais cobiçada da sala, a mais desejada entre mim e meus amiguinhos. Nove anos, eu tinha.
Fernanda era uma boneca: cabelos lisos, pretos, olhos puxados, nariz arrebitado. E eu, menino tolo, completamente apaixonado.
Lembro de tanta coisa: dos estudos no portão da sua casa, sentados no chão, cadernos apoiados em banquinhos. Eu imaginava que ela sentia o mesmo que eu, aquela vontade de ficar perto, de conversar. Mas ela, entendo, morava numa outra dimensão. Era imortal já, pisava nos astros e passava lânguida e ria.
Seu quarto era todo rosa, cortinas de babado, ursinhos de pelúcia. Eu pensava nela dormindo ali naquela cama, era tão difícil imaginá-la fazendo coisas comuns, coisas que eu fazia, que os outros faziam. Ela comia, dormia, ia ao banheiro? Isso eu ainda não sei.
Era uma festinha americana, casa da Bruna. Meninos levavam refrigerante e meninas, salgados.
E a Fernanda ali, entre todos os meninos que a amavam, decidiu dizer que ela, a imortal, amava o Rodolfo. E nessa hora eu percebi não só sua imortalidade como a minha mortalidade.
Foi minha primeira decepção amorosa, confesso.
Mas estranho, no segundo andar da casa, um outro menino, Welber, estava chorando por conta da descoberta. Ele também amava Fernanda, que amava Rodolfo, que provavelmente amava Fernanda. E ponto.
E eu, estranho, senti minha dor ir embora pra poder passar a mão nas costas do Welber. Talvez quisesse dizer: “amigo, ela é uma deusa.” E aí voltamos para aquela velha história de coisas que não foram ditas, imaturidade e etc e tal.
...
Fernanda hoje é deusa completa, de fotos com flores pelo cabelo. Vaga agora pelos astros completamente, numa interação plena.
Fernanda hoje é o astro, e sabe, madura, da força de sua beleza.
Hoje Fernanda, amiga do peito, mora um tanto afastada, talvez nós tenhamos sido empurrados por caminhos diferentes de vida.
Se ela sabe dos amores que despertava naquela época, não sei. Mas acredito que sim.
Se eu poderia, hoje, falar do meu amor pueril? Talvez.
Existem pessoas que lamentam amores não realizados, palavras não ditas.
Eu não.
Ainda que eu seguisse pelos caminhos “naturais” de um homem ou ainda que deusas povoassem meus sonhos e desejos, ainda assim não me arrependeria.
Fernanda é plena.
E eu amei e desamei ao meu tempo, sem traumas.

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